Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva
Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva,
Com lindo pé pisou
Verde erva, nem colheu as brancas flores,
Soltando seus cabelos d’ouro fino
Ao vento que em doces nós olhos ata,
Nem tão linda, discreta e tão formosa
Como esta minha imiga.
Aquilo que em pessoa que hoje viva
No mundo não se achou,
Quis nela a Natureza, seus primores
Mostrando, que se achasse de contino:
Castidade e beleza; ũa me mata,
A outra, de suave e deleitosa,
Me faz doce a fadiga.
Mas esta bela fera, tão esquiva,
Que o prazer me roubou,
Quis-me pagar seus únicos louvores,
Cantando eu num estilo dela indino;
Porque, se de louvor tão alto trata,
Não sei eu tão baixo verso e prosa
Que escreva nem que diga.
Aquela luz que a do Sol claro priva,
E a minha me cegou;
Aquele mover d’olhos, minhas dores
Causando no olhar manso e divino;
O doce rir, que esta alma desbarata,
[me] faz a sua pena desejosa
E de seu mal amiga.
Dos belos olhos veio a flama viva
Que n’alma se ateou
Com a lenha de vossos disfavores,
Queimando dentro o coração mofino,
Cujo fim, por mor dano se dilata
Co a esperança falsa e duvidosa
Que forçado é que siga.
[Mas], minha ou vossa vendo-se cativa
Quem Deus livre criou
Se aqueixa desses olhos roubadores,
Culpando ao claro raio peregrino;
Mas logo a luz suave, que a resgata,
De vossa linda vista graciosa
A faz que se desdiga.
Nenhũa que no mundo humano viva,
Que o Criador formou
Por milagre maior entre os maiores,
Formou um feito de tal Feitor dino;
Deus não quer que sejais, Senhora, ingrata,
Mas que ajudeis ũa alma desditosa
Que em vos servir periga:
A sofrer esta pela rigorosa
Vosso valor me obriga.
