Se de meu pensamento
Se de meu pensamento
Tanta rezão tivera de alegrar-me,
Quanta de meu tormento
A tenho de queixar-me,
Puderas, triste lira, consolar-me.
E minha voz cansada,
Que em outro tempo foi alegre e pura,
Não fora assi tornada,
Com [tanta desventura],
Tão rouca, tão pesada, nem tão dura.
A ser como soía,
Pudera levantar vossos louvores;
Vós, minha Hierarquia,
Ouvíreis meus amores,
Que exemplo são ao Mundo já de dores.
Alegres meus cuidados,
Contentes dias, horas e momentos,
Oh! quanto bem lembrados
Sois de meus pensamentos,
Reinando agora em mim duros tormentos!
Ai, gostos fugitivos,
Ai, glória já acabada e consumida,
Ai, males tão esquivos,
Qual me deixais a vida!
Quão cheia de pesar, quão destruída!
Mas como não é morta
Já esta vida? Como tanto dura?
Como não abre a porta
A tanta desventura,
Que em vão com seu poder o Tempo cura?
Mas pera padecê-la,
Se esforça o meu sujeito e convalece;
Que, só pera dizê-la,
A força me falece,
E de todo me cansa e me enfraquece.
Oh! bem afortunado
Tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
Do fero Radamante,
E cos teus olhos ver a doce amante!
As infernais figuras
Moveste com teu canto docemente;
As três Fúrias escuras,
Implacáveis à gente,
Aplacadas se viram, de repente.
Ficou como pasmado
Todo o estígio Reino co teu canto;
E, quase descansado
De seu eterno pranto,
Cessou de alcar Sisifo o grave canto.
A ordem se mudava
Das penas que regendo está Plutão.
Em descanso se achava
A roda de Ixião,
E em glória quantas penas ali são.
De todo já admirada
A Rainha infernal e comovida,
Te deu a desejada
Esposa, que perdida
De tantos dias já tivera a vida.
Pois minha desventura,
Como já não abranda ũa alma humana,
Que é contra mim mais dura,
E inda mais desumana,
Que o furor de Calírroe profana?
Ó crua, esquiva e fera,
Duro peito, cruel e empedernido,
Dalgũa tigre fera
Lá na Hircânia nacido,
Ou dentre as duras rochas produzido!
Mas que digo, coitado,
E de quem fio em vão minhas querelas?
Só vós, ó do salgado,
Húmido reino, belas
E claras Ninfas, condoei-vos delas.
E, de ouro guarnecidas,
Vossas louras cabeças levantando
Sobre as ondas erguidas,
As trancas gotejando,
Saindo todas, vinde a ver qual ando.
Saí em companhia,
E cantando e colhendo as lindas flores;
Vereis minha agonia,
Ouvireis meus amores,
E sentireis meus prantos, meus clamores.
Vereis o mais perdido
E mais infeliz corpo que é gerado;
Que está já convertido
Em choro, e neste estado
Somente vive nele o seu cuidado.
