Pode um desejo imenso
A D. Francisca de Aragão
Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto,
E purifique em tanta alteza o esprito
Cos olhos imortais,
Que faz que leia mais do que vê 'scrito.
Que a flama que se acende
Alto tanto alumia,
Que, se o nobre desejo ao bem se estende
Que nunca viu, a sente claro dia;
E lá vê do que busca o natural,
A graça, a viva cor,
Noutra espécie milhor que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo
De viva fermosura,
Que de tão longe cá noto e contemplo
N'alma, que este desejo sobe e apura;
Não creais que não vejo aquela imagem
Que as gentes nunca vêem,
Se de humanos não têm muita vantagem,
Que, se os olhos ausentes
Não vêem a compassada
Proporção, que das cores excelentes
De pureza e vergonha é variada;
Da qual a Poesia, que cantou
Até'qui só pinturas,
Com mortais fermosuras igualou;
Se não vêem os cabelos
Que o vulgo chama de ouro,
E se não vêem os claros olhos belos,
De quem cantam que são do Sol tesouro;
E se não vêem do rostro as excelências,
A quem dirão que deve
Rosa e cristal e neve as aparências;
Vêem logo a graça pura,
A luz alta e severa,
Que é raio da Divina fermosura,
Que n'alma imprime e fora reverbera,
Assi como cristal do Sol ferido,
Que por fora derrama
A recebida flama, esclarecido.
E vêem a gravidade
Com a viva alegria
Que misturada tem, de qualidade
Que ũa da outra nunca se desvia;
Nem deixa de ser ũa receada
Por leda e por suave,
Nem outra, por ser grave, muito amada.
E vêem do honesto siso
Os altos resplandores
Temperados co doce e ledo riso,
A cujo abrir abrem no campo as flores;
As palavras discretas e suaves,
Das quais o movimento
Fará deter o vento e as altas aves;
Dos olhos o virar,
Que torna tudo raso,
Do qual não sabe o engenho divisar
Se foi por artifício ou feito acaso;
Da presença os meneios e a postura,
O andar e o mover-se,
Donde pode aprender-se fermosura.
Aquele não sei quê,
Que aspira não sei como,
Que, invisível saindo, a vista o vê,
Mas pera o compreender não lhe acha tomo;
E que toda a toscana poesia,
Que mais Febo restaura,
Em Beatriz, nem Laura nunca via;
Em vós, a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
Se engenho, se ciência, e habilidade
Iguais à vossa fermosura der,
Qual a vi no meu longo apartamento,
Qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!
Pois se o desejo afina
Ũa alma acesa tanto
Que por vós use as partes de divina,
Por vós levantarei não visto canto,
Que o Bétis me ouça e o Tibre me levante,
Que o nosso claro Tejo,
Envolto um pouco o vejo e dissonante.
O campo não o esmaltam
Flores, mas só abrolhos
O fazem feio; e cuido que lhe faltam
Ouvidos pera mim, pera vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
Que o Sol, que em vós está,
Na escuridão dará mais claro lume.
