Nunca manhã suave

Nunca manhã suave,
Estendendo seus raios por o Mundo,
Depois de noute grave,
Tempestuosa, negra, em mar profundo,
Alegrou tanto nau, que já no fundo
Se viu em mares grossos,
Como a luz clara a mim dos olhos vossos.

Aquela fermosura,
Que só no virar deles resplandece,
E com que a sombra escura
Clara se faz e o campo reverdece,
Quando o meu pensamento se entristece,
Ela e sua viveza
Me desfazem a nuvem da tristeza.

O meu peito, onde estais,
É, pera tanto bem, pequeno vaso;
Quando acaso virais
Os olhos, que de mim não fazem caso,
Todo, gentil Senhora, então me abraso
Na luz que me consume,
Bem como a borboleta faz no lume.

Se mil almas tivera
Que a tão fermosos olhos entregara,
Todas quantas pudera
Por as pestanas deles pendurara;
E, enlevadas na vista pura e clara,
Posto que disso indinas,
Se andaram sempre vendo nas mininas;

E vós, que descuidada
Agora vivereis de tais querelas,
De almas minhas cercada,
Não pudésseis tirar os olhos delas;
Não pode ser que, vendo a vossa entre elas
A dor que lhe mostrassem,
Tantas ũa alma só não abrandassem.

Mas, pois o peito ardente
Ũa só pode ter, fermosa Dama,
Basta que esta somente,
Como se fossem mil e mil, vos ama,
Pera que a dor de sua ardente flama
Convosco tanto possa,
Que não queirais ver cinza ūa alma vossa.