Tão suave, tão fresca e tão fermosa
Tão suave, tão fresca e tão fermosa,
Nunca no céu saiu
A Aurora no princípio do Verão,
As flores dando a graça costumada,
Como a fermosa, mansa fera, quando
Um pensamento vivo me inspirou,
Por quem me desconheço.
Bonina pudibunda ou fresca rosa,
Nunca no campo abriu,
Quando os raios do Sol no Touro estão,
De cores diferentes esmaltada,
Como esta flor, que, os olhos inclinando,
O sofrimento triste costumou
A pena que padeço.
Ligeira, bela ninfa, linda, irosa,
Não creio que seguiu
Sátiro, cujo brando coração
De amores comovesse fera irada,
Que assi fosse fugindo e desprezando
Este tormento, donde Amor mostrou
Tão próspero começo.
Nunca, enfim, cousa bela e rigorosa
Natura produziu,
Que iguale aquela forma e condição,
Que as dores em que vivo estima em nada;
Mas com tão doce gesto, irado e brando,
O sentimento e a vida me enlevou,
Que a pena lhe agradeço.
Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa,
Aquilo que a alma viu:
Entre a doce dureza e mansidão,
Primores de beleza desusada;
Mas, quando quis voar ao céu, cantando,
Entendimento e engenho me cegou
Luz de tão alto preço.
Naquela alta pureza deleitosa
Que ao Mundo se encobriu,
E nos olhos angélicos, que são
Senhores desta vida destinada,
E naqueles cabelos, que soltando
Ao manso vento, a vida me enredou,
Me alegro e me entristeço.
Saudade e suspeita perigosa,
Que Amor constituiu
Por castigo daqueles que se vão;
Temores, penas d'alma desprezada,
Fera esquivança, que me vai tirando
O mantimento que me sustentou,
A tudo me ofereço.
Amor isento a uns olhos me entregou,
Nos quais a Deus conheço.
