Passo por meus trabalhos tão isento
Passo por meus trabalhos tão isento
De sentimento grande nem pequeno,
Que só por a vontade com que peno
Me fica amor devendo mais tormento.
Mas vai-me amor matando tanto a tento
Temperando a triaga co veneno,
Que do penar a ordem desordeno,
Porque não mo consente o sofrimento.
Porém, se esta fineza o Amor sente,
E pagar-me meu mal com mal pretende,
Toma-me com prazer como ao sol neve;
Mas, se me vê cos males tão contente,
Faz-se avaro da pena, porque entende
Que quanto mais me paga, mais me deve.
