Pede o desejo, Dama, que vos veja.

Pede o desejo, Dama, que vos veja.
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há coisa a qual natural seja
Que não queira perpétuo o seu estado.
Não quer logo o desejo o desejado,
Só porque nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana;
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da Natureza,

Assi meu pensamento, por a parte,
Que vai tomar de mim terrestre, humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.