Labirinto

Labirinto do Autor, queixando-se do mundo

Corre sem vela e sem leme
O tempo desordenado,
Dum grande vento levado:
O que perigo não teme,
É de pouco exp'rimentado.
As rédeas trazem na mão
Os que rédeas não tiveram;
Vendo quanto mal fizeram
A cobiça e ambição,
Disfarçados se acolheram.

A nau que se vai perder
Destrui mil esperanças;
Vejo o mau que vem a ter;
Vejo perigos correr
Quem não cuida que há mudanças.
Os que nunca em sela andaram,
Na sela postos se vêem:
De fazer mal não deixaram;
De demónio hábito têm,
Os que o justo profanaram.

Que poderá vir a ser
O mal nunca refreado?
Anda, por certo, enganado
Aquele que quer valer,
Levando o caminho errado.
É pera os bons confusão
Ver que os maus prevaleceram;
Que ,posto se detiveram
Com esta simulação,
Sempre castigos tiveram.

Não porque governe o leme
Em mar envolto, e turbado,
Quem tem seu rumo mudado,
Se perece, grita e geme.
Em tempo desordenado.
Terem justo galardão,
E dor dos que mereceram,
Sempre castigos tiveram
Sem nenhũa redenção,
Posto que se detiveram.

Na tormenta, se vier,
Desespere da bonança
Quem manhas não sabe ter;
Sem que lhe valha gemer,
Verá falsar a balança.
Os que nunca trabalharam,
Tendo o que lhe não convém,
Se ao inocente enganaram,
Perderão o eterno bem,
Se do mal não se apartaram.