Já não posso ser contente

MOTE ALHEIO
Já não posso ser contente,
Tenho a esp'rança perdida;
Ando perdido antre a gente,
Nem mouro, nem tenho vida.

GLOSA
Depois que meu cruel Fado
Destruiu ũa esperança,
Em que me vi levantado,
No mal fiquei sem mudança,
E do bem desesperado.
O coração, que isto sente,
À sua dor não resiste,
Porque vê mui claramente
Que pois nasci para triste,
Já não posso ser contente.

Por isso, contentamentos,
Fugi de quem vos despreza:
Já fiz outros fundamentos,
Já fiz senhora a tristeza
De todos meus pensamentos.
O menos que lhe entreguei
Foi esta cansada vida:
Cuido que nisto acertei,
Porque de quanto esperei
Tenho a esp'rança perdida.

Acabar de me perder
Fora já muito milhor;
Tivera fim esta dor,
Que não podendo mor ser,
Cada vez a sinto mor.
De vós desejo esconder-me,
E de mi principalmente,
Onde ninguém possa ver-me;
Que pois me ganho em perder-me,
Ando perdido antre a gente.

Gostos de mudanças cheios,
Não me busqueis, não vos quero:
Tenho-vos por tão alheios,
Que do bem que não espero,
Inda me ficam receios.
Em pena tão sem medida,
Em tormento tão esquivo
Que moura, ninguém duvida;
Mas eu se mouro ou se vivo,
Nem mouro, nem tenho vida.