Ilustre e nobre Silva, descendido
Ao ilustre Sr. Pedro da Silva
Ilustre e nobre Silva, descendido
Do grão filho de Anquises valeroso,
Por armas, e por sangue esclarecido;
Que, como forte, ousado e piadoso
Às costas salvou o pai de longos anos,
E o filho pela mão tenro e mimoso.
E os Penates, que tinham os Troianos,
Tirou no mor conflito da Cidade,
Em que Gregos fizeram tantos danos.
Crescendo foi de ũa em outra idade
Esta ilustre progénie generosa
Em virtude, valor, honra e bondade.
Até chegar à nossa tão ditosa,
Pois nele o Céu a ti Silva nos deu,
Que a fazes com tuas obras mais fermosa.
Aonde o ínclito Rei de moto seu,
Movido pelo esprito, que o guia
A maiores proezas, que a Teseu;
Pelas partes, que em ti já conhecia,
Ou decreto de cima te escolheu
Por começo do fim que pretendia.
De Capitão de Tânger te proveu
Em tempo que o Maluco assaz valente
O grande Império de África venceu.
E sendo esta eleição do Rei valente,
Da cega inveja foste murmurado,
Porque ninguém escapou ao maldezente.
Não te negaram seres esforçado,
Mas deziam, que à guerra em tal idade
Servira Capitão exp’rimentado.
E que em tempo de tal necessidade
Convinha velho amparo, e forte escudo,
Em quem não possa haver temeridade.
Mas bem ao contrário se viu tudo,
Pois prudência, e esforço juntamente
Em ti exp´rimentou o Mouro rudo.
Quando com grão conselho, e pouca gente
Atravessaste os campos africanos,
Como grão Capitão, velho, valente.
E foste a parte, aonde os Mauritanos
Não tinham visto lança de Cristãos
Havia longos tempos, longos anos.
Tomaste descuidado um Capitão
No tempo, e assi na guerra exp´rimentado,
Em quem se confiava Tetuão.
Alafe, irmão de Alafe, nomeado,
Que não só o seu campo defendia,
Mas entrava no nosso confiado;
Este, que toda a grande Barbaria
Tinha por mui prudente e animoso,
Agora o tens na tua estrebaria.
Que pode aqui dezer pois o invejoso,
Onde tão claro vê, que nessa idade
Supre o nobre sangue generoso.
Não te dirá que foi temeridade
Pera feito como este tão valente,
Com ter seguro o campo e a cidade.
Nem te pode negar seres prudente,
Pois tempo e conjunção foste escolher
Em que não arriscastes a tua gente.
Mas assi te soubeste recolher
Com grão despojo feito, denso dano,
Sem um dos que levaste se perder.
Ó felice Varão, Silva troiano,
Quem te pode louvar, como venceste,
Pois no dia menor, que tinha o ano,
O maior feito em África fizeste.
