Ganhei, Senhora, tanto em querer-vos

Ganhei, Senhora, tanto em querer-vos,
Que nenhum disfavor me dá tormento,
Que me não dê maior glória merecer-vos.

Não quero pera meu contentamento
Senão meus olhos, pois vos vêem, Senhora,
E a vossas cruezas sofrimento.

Ditoso o dia foi, ditosa a hora
Que alcancei ver vossa gentileza,
Cujo mal não sofrer, mais mal me fora.

Sinto com vos servir tanta estranheza,
Sinto voar tão alto o pensamento,
Que todo o outro bem julgo baixeza.

E por exp´rimentar meu sofrimento
Vos mostrais contra mim endurecida,
Oh! que doce paixão, doce tormento.

Se vossa condição desconhecida
Me não quer dar o fim pera mor dano,
Oh! que doce morrer, que doce vida.

E se de seu favor me sinto ufano
Quando de meu mal culpada se acha
Oh! que doce enganar, que doce engano.

E se em querer-vos tanto ponho tacha,
Mostrando refrear meu pensamento,
Oh! que doce fingir, que doce cacha.

Assim que ponho já no sofrimento
A parte principal da minha glória,
Tomando por milhor todo o tormento.

Se sinto tanto bem, só na memória
De vos ver triunfar por vencedora,
Que quero eu mais que ser vossa a vitória?

Se tanto vossa vista mais namoro
Quanto sou menos pera merecer-vos,
Que quero eu mais que ter-vos por Senhora?

Se procede este bem de conhecer-vos,
E consiste o vencer em ser vencido,
Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?

Se em proveito faz qualquer partido
Só na vista de uns olhos tão serenos,
Que quero eu mais ganhar que ser perdido?

Se meus baixos espritos de pequenos
Ainda não merecem de alcançar-vos,
Que quero eu mais, que o mais não seja o menos?

Fico enfim satisfeito em desejar-vos
E se nisto tal bem tenho alcançado,
Quem pode tanto que pudesse amar-vos,

Bem poderia ser de vós amado.