Foi-me alegre o viver, já me é pesado

Foi-me alegre o viver, já me é pesado,
Que, do contentamento que sentia
À minha custa estou desenganado.

Ao regaço da morte a dor me guia,
Porém, porque com vida mais me mata,
Dilatando-ma vai de dia em dia.

Manda-me amor fugir da morte ingrata,
(Pois não sofre limite em vos amar)
Que ele os laços ordena, ele os desata.

Lancei contentamentos a voar,
Tarde os espero ver; que é seu costume
Ter asas ao fugir, freio ao tornar.

O pensamento posto em alto cume,
Pera sacrificar-se à vossa vista,
No coração me guarda eterno lume.

Co pensamento os olhos têm conquista,
Pois sempre em vós está, porque os não leva.
Que ele muro não tem, que lhe resista.

Ainda que minha alma em vós se enleva,
Em todo tempo não deixa de arder,
Quando o monte arde em calma, ou quando neva.

Vivei, cuidados, enquanto eu viver,
Ou por que em sombras vossas sempre viva,
Ou por que me apressais pera morrer.

Vontade minha, sempre sois cativa,
Meu pensamento, nunca sois mudado;
Flama de amor, sereis sempre em mim viva.

Suave cativeiro, doce estado,
Brando fogo de amor, que em vós guardais
A fim de meu desejo retratado.

Nunca nesta alma a minha, aonde estais
Falteis, porque então falta a esperança;
Sem quem me falta a vida muito mais.

Senhora, em cujo peito ódio e mudança
Lançam fora o Amor, e sua firmeza,
Que dais esquecimento por lembrança:

Armada dos espinhos da crueza,
Trazeis por aparências a brandura
No rosto, a qual o peito pouco preza.

Mostrou-me um leve bem minha ventura,
Paguei-o logo com longo tormento,
Que o gosto foge sempre, e a pena dura.

A tanta dor um leve sentimento
Nunca em vós pude ver, quanto em vão digo,
Mais mudável que o vento o dais ao vento.

No princípio meu Fado foi-me amigo,
Naveguei pelo mar deste desejo,
Que leva de um perigo a outro p´rigo.

Em vós é pouco o amor, em mim sobejo,
Cresce em mim, falta em vós, e de maneira,
Que do quanto em vós vi, já nada vejo.

Mostrou-se-me o tormento na primeira
Com rostro alegre, pera que o seguisse,
E lancei-me a o seguir nesta cegueira.

Fortuna, porque quis que eu o sentisse,
Mostra-se, por mostrar qual dentro era;
Eu choro meu engano, e ela ri-se.

Quem em contentamentos vãos espera,
Espere cedo de desenganar-se,
Que tem breves limites sua espera.

Porém quem há, que mais queira livrar-se
De tão doce prisão, ou quem deseja
Dos nós desses cabelos desatar-se?

Olhos, a quem as luzes têm enveja,
Que em vós o Amor de amor tendes vencido,
Quem há que vos não ame, e vos não veja?

Rostro fermoso, em quem está esculpido
O mor bem, que se pode ver na Terra,
Quem há, não queira ser por vós perdido?

Olhai, Senhora, as horas apressadas,
Que vêm cobrindo o ouro dos cabelos
De neve, e torna as rosas descoradas.

Ireis ver ao cristal os olhos belos,
E já os não vereis quais dantes eram,
Pois quais então serão, não queirais vê-los.

Usai dos bens, que vão como nasceram,
Olhai, que tudo desce de alto estado,
Que também os prazeres meus desceram,

Mas não descerá nunca meu cuidado.