Eu só perdi o verdadeiro amigo
A D. Álvaro da Silveira, que mataram na Índia
Eu só perdi o verdadeiro amigo,
Eu só hei-de viver nesta saudade,
Sabe Deus a tristeza com que o digo.
O meu Silveira era ũa vontade,
Um amor, um desejo, um querer,
Ambos um coração, é ũa amizade.
Não tenho já rezão de vos fazer
Meus castelos de vento sobre o mar,
Que cousa há i já no Gange pera ver?
Que cousa nele há que desejar?
Foi-se daquesta vida o meu Silveira,
Tudo o bom na outra se há-de achar.
Que espada nas batalhas foi primeira,
Ou qual antre os imigos mais prezada,
Ou qual se achou mais na derradeira?
E ora de seus soldados ajudada
Fora deles ũa hora mais seguida,
Fora deles milhor acompanhada.
Que aquela Ilha deles tão temida,
Ele a tinha já em tal estreiteza
Que durar não pudera ũa hora em vida.
Mas gentes que não têm de natureza
Esforço, espírito, sangue e condição,
O seu natural é mostrar fraqueza.
Deixam morrer seu próprio Capitão,
Deixam perder as forças que os sustêm
E tudo lhes consente o coração.
Não tratam da glória deste bem,
Deste viver na fama sempre e vida,
O que lhe dizem disto não o crêem.
Quem a vitória viu mais conhecida,
A não se ver dos seus desamparado
Qual esteve mais certa ou mais subida?
Com que saber o porto foi tomado
À gente do Barém que o defendia,
Com que esforço foi tudo começado?
Que temor nos imigos já se via,
Que vitória tão clara aquela estava,
Que cousa aquele espírito não faria?
Que receio já neles se enxergava,
Que deram pelas vidas se quisera
Aquele que tirar-lhas desejava?
Mas que ouro, que preço então pudera
Fazer tornar atrás tanta ousadia,
Ou quem fora que aquisto cometera?
Quem se atrevera aí, quem ousaria
Cos tesouros de Crasso acometer,
A quem só honra e fama pretendia?
Forçado neste caso se há-de crer
Que o coração lhe não dava lugar
A mais que naquisto podia ter.
Por onde quis por obra começar
Aquela crua peleja receando,
Concertos que a soem desviar.
A presteza da cousa está mostrando
A vontade que tinha e o desejo
De se ver já na pátria pelejando.
Aquela hora, momento, aquele ensejo,
Quantas vezes ali desejaria
Verem-no pelejar Ninfas do Tejo.
Que vezes por elas chamaria,
Com que esforço seria esta lembrança,
Quantas vezes a algũa invocaria.
Com que graça e arte e confiança
Se parte na praia dos primeiros,
Quão longe de fazer atrás mudança.
Aquestes bons espíritos verdadeiros,
De que não digo o terço do que calo
Que desprezar fazia dos frecheiros;
Que longe de poderem enfadá-lo
Aqueles insofríveis alaridos
Daquela gente iníqua de cavalo.
Rodeado de mortos e feridos,
Que aquele forte braço derribaba,
Sendo os seus às naus já recolhidos.
Deu a alma a quem a desejava,
Com tanto gosto e contentamento
Que de tal esforço se esperava.
Ó bom desastre, alegre esquecimento,
Por vós o meu Silveira está na glória,
Por vós lá lhe repousa o pensamento;
Por vós eternamente na memória
Correrá a este caso seu louvor,
De que se pode fazer larga história,
Quem a vida sacrificou do Redentor.
