Duvidosa esperança, certo medo
Duvidosa esperança, certo medo,
Senhora, de me não ouvir meus danos,
Fizeram que não fiz isto mais cedo.
Mil remédios busquei, busquei enganos,
Por encobrir o mal que me causais
Temendo outra mor dor dos desenganos.
Mas tudo quanto fiz, fiz por demais:
Amor, que como quer, de mi o ordena,
Não sofre que tal dor encubra mais.
A ser vosso, Senhora, me condena:
Nisto mercê me faz: se a vós ofende,
A culpa ao amor dai, a mi a pena.
Não cuideis que minha alma se defende
De cousa de que vós fordes contente,
Porque só isso busca, isso pretende.
Ditosa dor a que por vós se sente:
Ditoso, pois conheço esta verdade,
Pera não ser das minhas descontente.
Contudo, a não poder ũa vontade
Tão pura, e tanto a medo oferecida,
Mover-vos de meu mal a piadade;
Não quero mais viver, não quero vida:
Milhor me será morte, que desgosto
A quem tanto desejo ver servida.
Banhem pois minhas lágrimas meu rosto;
Suspire o coração, que treme, e arde;
Chorar e suspirar seja o meu gosto.
Não queiram os meus fados que me guarde
De sentir nova dor, novo tormento,
Que sinto muito mais senti-lo tarde.
Quisera, desde que tive entendimento,
Por ver se com firmeza vos movia,
Não ter em outra cousa o pensamento.
Em vós cuidar a noute, em vós o dia;
Por vós sentir prazer, por vós tristeza;
Sem vós ter pera mim que não vivia.
Mas nem por isso haja inda em vós crueza.
Sofre-se mal num peito delicado:
Parece cousa contra Natureza.
Olhai que em vivas chamas abrasado
Por remédio, Senhora, ante vos venho:
Buscá-lo noutra parte é escusado.
Porque não val´ saber, força, nem engenho,
Pedras, palavras, ervas de virtude,
Contra o golpe d’amor, que n´alma tenho.
Se vossos olhos podem dar saúde
Se neste grave mal me não socorrem,
Deixem-me morrer já, ninguém me ajude.
Ditosos são os tristes quando morrem
No começo dos danos, que não sentem
Quão vagarosas as tristezas correm.
Porém se as esperanças me não mentem,
Espero deste conto inda ser fora,
Que cruezas em vós não se consentem.
Enfim, a fim de tudo isto é, Senhora,
Que se me não valeis, tenhais por certo,
Que cedo verei a derradeira hora.
Já que meu mal vos tenho descoberto,
Havei de mim dó: não seja isto, enfim,
(Como dizem) dar vozes em deserto:
Valei-me, que por vós me perco a mim.
