Divino almo pastor, Délio dourado

De Sexta-Feira de Endoenças

Divino almo pastor, Délio dourado,
A quem de Anfrísio já viram os prados
Guardar formoso, rico e branco gado;

Aos quais adormentavas enlevados
No doce som da lira, e alternando
Com versos e cantares namorados.

E as Ninfas e pastores ensinando
O caminho de Cipro e dos amores,
As ondas, feras e aves enlevando.

Ó formosura e honra dos pastores,
Que dum a outro pólo do horizonte
A Natureza pintas de mil cores.

Ó pai das nove Irmãs, senhor da Fonte,
A quem as ondas cedem de Leteu,
Posta no mais excelso e sacro monte;

Por que causa, me dize almo Timbreu.
O céu resplandecente hoje, cobris­te
De tão mal-assombrado e negro véu?

Se lembranças te fazem, Febo, triste,
De Dafne pera ti tão fera e crua,
A quem com tal vontade já seguistes;

Também te lembrará como por tua
Causa foi transformada em verde rama,
Por não se ver da roupa casta nua.

Por donde aquela dor e aquela chama
No insensato corpo difundida,
Nenhum vigor nem força já derrama.

Pois tu da praia Hespéria esclarecida
Adonde Tétis, Xanto e Galateia
A teus cavalos vêm tirar a brida;

E a formosa Clio e Panopeia
Com Dóris sobre as ondas levantadas
Te vêm a receber com boa estreia.

Ainda estás aquém duas jornadas,
E no outro hemisfério a noute escura
Tem as nocturnas sombras encerradas.

Se acaso a caída e má ventura
De Fáeton te lembra, cuja morte,
Te deu sempre jamais tanta tristura;

O não teres tua culpa te conforte,
Que o moço de soberbo não podia
Cair em menos miserável sorte.

Mas vós, castas Irmãs, que noute e dia
Cantais em versos élicos o choro,
Com o cândido Cisne em companhia;

Unidas todas ali vinde em coro,
Um padre consolai tão descontente,
Em módulo cantar doce e canoro.

Se a dor que manifesta e mostra à gente
Desta causa procede, mais parece
Que outra pena maior é a que sente.

Pois a prenhada terra brota e crece,
De mil flores enchendo os verdes prados,
E tarda bem o tempo que anoitece.

Éolo nas montanhas encerrados,
Os cruéis ventos tem mais furiosos,
De mil prisões de ferros carregados.

Só Zéfiro, Favónio, de amorosos
Espíritos cheio brandamente aspira
Por estes vales verdes e formosos.

Clânis formosa por amor suspira,
E Flora em companhia da alvorada,
Que agora o seu veneno tem mais ira.

Pois tu no Touro fazes a morada,
Deixando Aquário e Píscis de mau brio
Com Vénus antre os cornos assentada.

O qual meteu Europa no mar frio,
Assim que bem olhado e bem sentido
Triunfas do Inverno e seco Estio.

Se mortal rogo foi jamais ouvido,
Délio imortal de ti, se nalgũa hora
À piedade foste comovido,

Dize-me por que causa o mundo chora,
Mostrando tais sinais e tal tristura,
Escondendo a rosada e fresca aurora?

Que segundo os segredos da Natura
Nos mostram claramente os elementos,
O mundo não será de muita dura.

Vejo o furor do mar e bravos ventos,
Das estrelas e sinos e planetas
De seus lugares fora e firmamentos.

Vejo coriscos, raios e cometas,
Relâmpagos e trovões mui acendidos
Sair por diferentes e altas metas.

E nos mais altos montes e subidos
De Pélias, Emodo, Ossa, Pindo, Atlante,
Os robustos carvalhos destruídos.

Quer porventura algum novo gigante
Subir por estes a o firmamento
E derrubar a Júpiter possante?

O qual movido de soberbo intento,
Qual os de Flegra que já são passados
Em pago de tamanho atrevimento?

Os eixos dos dous orbes ordenados
A sustentar a máquina mundana
Parecem já desfeitos e quebrados.

Ó mente baixa de matéria humana,
Cega no bem e vista na maldade
Que tão soberba vás e tão ufana,

Que vás buscando a fonte da verdade,
E cega-te a mentira de maneira
Que não vês palmo já de claridade;

Põe os olhos da fé pura e sincera
Nas altas cimas do Calvário monte,
Por onde irás à glória verdadeira.

Verás a cristalina e clara fonte
Da vida pura posta num madeiro
Por te livrar da barca de Aqueronte.

Ó verdadeira luz, justo cordeiro,
Jesus benino, manso e piadoso,
Filho do Padre eterno e verdadeiro.

Que causa te moveu, Rei poderoso,
Tão escondida lá na mente eterna,
A padecer fim tão desonroso;

E deixares a mais alta e mais superna
Cadeira e vida pela mais escura
De quantas a mortal fama governa?

Se te moveu, Senhor, esta feitura
A morte condenada eternamente
Por a lei quebrantada de Natura;

Lembra-te quão malvada e má semente
É esta a quem te dás crucificado,
Que sempre te tem pago ingratamente.

Ó mundo ingrato, cego, descuidado,
Cheio de falsidades enganosas,
Em pecados e vícios ocupado,

Que não derramas lágrimas chorosas
Em tanta quantidade que pareça
Mostrar sequer entranhas amorosas.

Tu, mar, que não levantas a cabeça
Por tornar a cobrir o que cobriste
Pera que tudo acabe e que pereça.

Vós, ventos, a quem nada enfim resiste,
Que não transtornais tudo em desconcerto,
Tu, dura terra, por que não te abriste.

Vós, plantas, feras e aves do deserto,
Que não chorais, pois chora a Natureza
Vendo-se posta em tamanho aperto.

Vós, altos céus, de lá da mor alteza,
Bem sei quanto sentis a Divindade
Em tal miséria posta e tal baixeza.

Pois vedes o Senhor da majestade,
Que vos criou de nada, submetido
Por amor puro, aos pés da humildade.

Senhor, que amor foi este tão crescido
Que tão dobradas forças faz singelas,
Só tão alto, baixo e abatido.

Ó preciosas chagas roxas, belas
Luminárias da noite tenebrosa,
De toda luz privada das estrelas.

Ó Cruz bendita, cara, preciosa,
Contempla bem o passo que te deram
Ó coroa de espinhos amargosa.

Vós, santos cravos, quando vos meteram
À força de martelo, logo à ora
As serpentes e dragos se esconderam.

O coração, ó alma, que não chora
Vendo-te, Redentor, com tantas dores,
Em pedra viva de diamante mora.

Que não contempleis isto, pecadores,
E derramais mil lágrimas no dia
Vendo o Senhor tão triste dos senhores.

Tu, Virgem pura, santa Ave-Maria
Cheia de graça, esposa, filha e madre
Mais formosa que o Sol ao meio-dia,

Que vás buscando ao esposo, filho e padre,
Qual cordeira perdida da manada
Sem guarda de pastor, nem cão que ladre;

Vai rainha dos Anjos mui amada
E preciosa pedra diamantina,
De perfeições e graças esmaltada;

Vai estrela do mar, vai luz divina
Escolhida do Céu, vai cordeirinha,
Branca açucena e rosa matutina;

Vai caminho da glória, vai pombinha
Branca, sem fel, bendita antre as mulheres,
Vai mãe da lei da graça, vai asinha

Ao monte Calvário, se ver queres
Ao teu precioso filho antes de morto,
Desconsolada vai, vai, não esperes.

Ao qual acharás bem sem conforto,
Posto na Cruz por partes mil chagado,
Por nos dar sossegado e manso porto.

Escarnecido, só, desamparado
Antre dous malfeitores condenados
De fariseus e armas rodeado.

Ó duros corações destinados,
Cegos, malditos, torpes de má casta,
Lobos, no sangue justo encarniçados,

Dez ei que Tigre hircano ou que Cerasta,
Que Aspe, Basilisco, ou que Dipsarta,
Das quais a quente Líbia é cheia e basta;

Que Trácia, Grécia, Colchos, Cítia, Esparta
Ou que bárbara gente crua e fera
De trágicos insultos nunca farta,

Humana não deixara e não perdera
A crueldade toda, se te vira,
Jesus benino, posto na Cruz vera.

Mas vós cruéis, perversos, cheios de ira,
Com grita e escárnio, riso, tudo misto
Estais asidos todos na mentira;

Dezendo em voz alta: Se tu és Cristo,
Desce-te dessa Cruz em que estás posto;
Não bastando os milagres que haveis visto.

E Tu, Senhor, metido em tal desgosto,
Estás sofrendo penas tão estranhas
Com humilde, sereno e manso rosto.

Ó algozes ingratos de más manhas,
De troncos e penedos produzidos
Nas mais altas e ásperas montanhas!

Que não vos humilhais, dezei, perdidos,
E não pedis perdão do que vos toca,
Que segundo é meu Deus, sereis ouvidos.

Pois Ele com humilde rogo invoca
Ao Padre por vós beninamente,
Deitando o fel e sangue pela boca;

Dezendo: Padre meu Omnipotente
Pedir-te quero, antes que me acabem:
Que tudo isto perdoes a esta gente;

Pois o que fazem, certo não o sabem.
Ó palavras altíssimas, celestes,
Nas quais secretos e mistérios cabem:

Mas vós, malditos, como não soubestes
Senão idolatrar como gentios,
Nenhũa cousa destas conhecestes.

Que sempre caminhastes por desvios,
Deixando a lei de Deus sagrada e pura,
Desterados por montes, selvas, rios.

Quem cuidará, Senhor, na tua brandura,
Misericórdia grande e piedade
Que excede ser de ordem de Natura.

Por mais duro que seja na maldade,
Que não derrame sempre noute e dia
Lágrimas, qual um rio em quantidade;

Leitor, que lendo vês esta Elegia,
Quero-te perguntar de amor vencido
Se contemplando lá na fantasia

Algũa vez, acaso no sentido,
Vendo raiar o Sol na mor altura,
De rubicundos raios acendido;

E depois que se põe a fermosura
De diversas estrelas espalhadas,
Quando Hécate cobre a terra dura;

E as ondas do mar bravo salgadas
Tão sujeitas num ser sem se espalharem,
Nem de rios ou chuva acrescentadas,

Os quais cursando sempre sem faltarem,
Digo de muitos que há i que são famosos,
Que correm sempre sem jamais pararem;

Se ver os campos verdes deleitosos,
Qual formoso pavão, feras e aves
Nos apartados bosques mais sombrosos;

As quais com cantos doces e suaves
Saudam a manhã mui presenteiras,
Com passos ora agudos, ora graves;

Se ver os ritos, vidas e maneiras
Tão diversos, que há i por nosso dano
Nas apartadas gentes estrangeiras;

Se ver tanta mudança num só ano,
Escuro, claro, chuva, frio e calma,
E tudo pera prol do bem humano,

Contemplaste lá dentro na tua alma,
Porventura algum dia separado
Da pesada mortal terrestre salma,

Em tantas criaturas que há criado
O Criador do mundo, Padre Eterno,
No alto Céu cos olhos enlevado.

E neste pensamento tão superno
Com tão ligeiras asas desprezando
A trabalhosa vida deste Inferno;

Pois olha pecador que vãs nadando
Nas procelosas ondas deste mundo,
Nos mistérios divinos contemplando;

E verás o mais alto sem segundo
Posto na vera Cruz, no monte santo,
Por te livrar do lago mui profundo.

Não, aquele que lá te punha espanto,
Fabricado na mente que sempre erra,
Coberto de mortal e cego manto,

Mas o próprio que fez o Céu e a Terra,
E tantas maravilhas que cá vemos,
Afora as outras que consigo encerra.

Dezei, dezei mortais, que lhe daremos,
Por mais que o amemos ou sirvamos,
Que a mais pequena parte lhe paguemos.

Este domingo atrás nos alegremos,
Senhor, com festas, danças, e alegrias
Dando-te capas e olorosos ramos;

Agora por cumprir as profecias
Pelos profetas santos declaradas,
Te vemos morto dentro em cinco dias.

Com as carnes feridas e chagadas,
De mil açoutes cheio, arrepelado
De couces, empurrões e bofetadas.

Estás, Jesus benino, qual no prado
O lírio branco fica descomposto,
Do homicida ferro derrubado;

Ou qual ao Sol se mostra antes de posto
De cores tristes, ou qual branca rosa
De frio trespassada em mês de Agosto;

Ou qual cisne na ribeira umbrosa,
Que pressago do fim brando enternece
A circunstante selva em vós melosa.

Senhor, com cuidar isto se entristece
A minha alma de modo, e meu sentido,
Que do seu próprio alento desfalece.

Contemplo-te meu Deus na Cruz subido,
E vejo-te cos olhos verdadeiros
Cercado de mil anjos e servido;

Os quais voando leves e ligeiros,
Qual enxame de abelhas pressurosas,
Trabalham por curar os teus marteiros:

Uns cobrem com unguentos olorosos,
E outros com vasos de poção divina,
Os teus sagrados membros preciosos.

Outro com água pura e cristalina
Está lavando as chagas, e outros prestes
Acodem com toalha rica e fina.

Outros parecem antre todos estes
Com cálices do Novo Testamento,
Tomando as gotas de licor celeste.

Outros batendo as asas sempre ao vento,
Parece que trabalham quanto podem
Por te tornar a dar vital alento.

Outros de novo pelo ar acodem,
E outros, feitos bizarros soldados
Com espadas na mão, postos em ordem,

Querem ir cometer mui denodados
Aquela gente torpe endiabrada;
Mas Tu, Senhor, os tens só refreados.

Vendo quão pouco ganham na jornada,
Por que se Tu quiseras dum aceno,
Só Pedra os destruirá sem espada.

Recebe, pão de vida, este pequeno
Sacrifício de mim, à sombra escrito
Dum alto freixo deste vale ameno.

E dá-me tanta graça e tanto esprito,
Pera que sempre louve, qual espero,
O teu saber profundo e infinito.

Tomara ser Virgílio ou ser Homero,
Somente no saber que foi divino,
Que ser que eles foram não o quero,

Pera poder cantar ó Rei benino,
Em puro choro as chagas que te vejo
A dor das quais provoca a desatino:

Mas já que ver não posso este desejo,
O qual tomara só pera louvar-te
Meu Deus, de dar-te pouco não me pejo;

Porque eu pera dar mais, sou pouca parte.