Depois que Magalhães teve tecida

A D. Leonis Pereira sobre o livro que Pedro de Magalhães lhe ofereceu, do descobrimento da Terra de Santa Cruz.

Depois que Magalhães teve tecida
A breve história sua, que ilustrasse
A Terra Santa Cruz, pouco sabida,

Imaginando a quem a dedicasse
Ou com cujo favor defenderia
Seu livro dalgum zoilo que ladrasse;

Tendo nisto ocupada a fantesia,
Lhe sobreveio um sono repousado,
Antes que o Sol abrisse o claro dia.

Em sonhos lhe aparece, todo armado,
Marte, brandindo a lança furiosa,
Com que fez quem o viu todo enfiado,

Dizendo em voz pesada e temerosa:
— Não é justo que a outrem se ofereça
Obra algũa que possa ser famosa,

Senão a quem por armas resplandeça
No largo Mundo com tal nome e fama,
Que louvor imortal sempre mereça. —

Disse assi: quando Apolo, que da flama
Celeste guia os carros, de outra parte
Se lhe apresenta, e por seu nome o chama,

Dizendo: — Magalhães, posto que Marte
Com seu terror te espante, todavia
Comigo deves só de aconselhar-te.

Um varão sapiente, em quem Talia
Pôs seus tesouros e eu minha ciência,
Defender tuas obras poderia.

É justo que a escritura na prudência
Ache só defensão; porque a dureza
Das armas é contrária da eloquência. —

Assi disse; e, tocando com destreza
A cítara dourada, começou
De mitigar de Marte a fortaleza.

Mas Mercúrio, que sempre costumou
Pacificar porfias duvidosas,
Co caduceu na mão, que sempre usou,

Determina compor as perigosas
Opiniões dos deuses inimigos
Com suaves rezões e ponderosas;

E disse: — Bem sabemos dos antigos
Heróis e dos modernos, que provaram
De Belona os gravíssimos perigos,

Como tão bem mil vezes concordaram
As armas com as letras, porque as Musas
A muitos na milícia acompanharam.

Nunca Alexandre ou César, nas confusas
Guerras, o estudo deixam grande espaço;
Que as armas jamais dele são escusas.

Nũa mão livros, noutra ferro e aço;
Aquela rege e ensina, estoutra fere;
Mais co saber se vence que co braço.

Pois logo, um varão grande se requere,
Que com teus dões, Apolo, ilustre seja,
E de ti, Marte, palma e glória espere.

Este vos darei eu, em quem se veja
Saber e esforço no sereno peito,
Que é um Leonis, que faz ao mundo inveja.

Deste as Irmãs em vendo o bom sujeito,
Todas nove nos braços o tomaram,
Criando-o co seu leite no seu leito.

As Artes e as Ciências lhe ensinaram;
Inclinação divina lhe influíram
As virtudes morais, que logo o ornaram.

Daqui nos exercícios o seguiram
Das armas no Oriente, onde primeiro
Um soldado gentil instituíram.

Ali tais provas fez de cavaleiro
Que, de cristão magnânimo e seguro,
A si mesmo venceu, por derradeiro.

Depois, já capitão forte e maduro,
Governando toda a Áurea Quersoneso,
Lhe defendeu co braço o débil muro;

Porque, vindo a cercá-lo todo o peso
Do poder dos Achéns, que se sustenta
De alheio sangue, em fúria todo aceso;

Este só, que a ti, Marte, representa,
O castigou de sorte, que vencido,
De ter quem vivo fique se contenta.

E logo que este Reino defendido
Deixou, segunda vez, com maior glória,
Pera o ir governar foi elegido.

Mas não perdendo inda da memória,
Os amigos, o seu governo brando,
Os imigos, o dano da vitória;

Uns, com amor intrínseco, esperando
Estão por ele; e os outros, congelados,
O estão com frio medo receando.

Vede pois se seriam debelados
Por seu claro valor, se lá tornasse,
E dos Índicos mares degradados;

Porque é justo que nunca lhe negasse
O conselho do Olimpo, alto e subido,
Favor e ajuda com que pelejasse.

Aqui só pode ser bem dirigido
De Magalhães o estudo; este só deve
Ser de vós, claros Deuses, escolhido. —

Assi Mercúrio disse; e em termo breve
Conformados se vêm Apolo e Marte;
E voou juntamente o sono leve.

Acorda Magalhães e já se parte
A of´recer-vos, Senhor claro e famoso,
Tudo o que nele pôs Ciência e Arte.

Tem claro estilo, engenho curioso,
Pera poder de vós ser recebido
Com mão benina, de ânimo amoroso.

Pois se só de não ser favorecido,
Um alto espírito fica baixo e escuro,
Este seja convosco defendido,

Como o foi de Malaca o débil muro.

Única elegia e um dos três poemas publicados oficialmente em vida.