Fora conveniente Ser eu outro Petrarca ou Garcilasso

A um Amigo

Fora conveniente
Ser eu outro Petrarca ou Garcilasso,
Ou ir ousadamente
Buscar em largo passo
O sagrado Hélicon ou o Parnasso;
Ou que, em mim inspirara,
Apolo sua graça peregrina,
Ou que até o Céu buscara
A fonte cabalina
E bebera a sua água tão divina.

Ou ao menos pudera
Antre aqueles contar-me, que alcançado
Na lusitana esfera
Têm o louro sagrado
Daquele de quem o Sol é governado;
Pera que ousadamente
De minha Musa vos dera essa parte,
À vossa, que somente
As nove Irmãs de Marte
Concederam perfeita esta sua arte.

A vós, por quem já crece
O lusitano nome a tanta glória,
Que a seu pesar esquece
De Virgílio a memória
Mântua e de suas obras a alta Hespéria;
A vós, que enrouquecestes
A cítara sonora do Treício,
E que tomar pudestes
A Delfos o exercício,
E também a Minerva o seu ofício.

A vós, a cuja glória,
No mais antigo tempo e presente,
O louro da vitória
Concede facilmente
Qualquer que de Talia as obras sente;
A vós, cuja alta fama
Vi antre os Garamatas conhecida,
À luz que o Sol derrama
Na terra enobrecida
Por vós, já tão de todo escurecida.

Aquel' primeira aurora
Virá depois do Sol um só momento,
Ele esqueça algũa hora,
Ou possa o esquecimento
Tolher-lhe seu contino crescimento.
Não é de confiado
Mostrar-vos minhas cousas, pois conheço
Que tendes alcançado
Nisto o mais alto preço
E quanto em mostrá-las desmereço.

Mas é de desejoso
De vos obedecer, porque estou vendo
Que a nome tão honroso
Mais ganho obedecendo
Que peco em demonstrar quão pouco entendo.