Fermosa fera humana

Fermosa fera humana,
Em cujo coração, soberbo e rudo
A força soberana
Do vingativo Amor, que vence tudo,
As pontas amoladas
De quantas setas tinha, tem quebradas;

Amada Circe minha,
(Posto que minha não, contudo amada),
A quem um bem que tinha
Da doce liberdade desejada
Pouco a pouco entreguei,
E, se mais tenho, mais entregarei;

Pois Natureza irosa
Da rezão te deu partes tão contrárias
Que, sendo tão fermosa,
Folgues de te queimar em flamas várias,
Sem arder em nenhũa
Mais que enquanto alumia o mundo a Lua;

Pois triunfando vás
Com diversos despojos de perdidos,
Que tu privando estás
De rezão, de juízo e de sentidos,
E quase a todos dando
Aquele bem que a todos vás negando;

Pois tanto te contenta
Ver o nocturno moco, em ferro envolto,
Debaixo da tormenta
De Júpiter, em água e vento solto,
A porta, que impedido
Lhe tem seu bem, de mágoa adormecido;

Porque não tens receio
Que tantas insolências e esquivanças
A deusa, que põe freio
A soberbas e doudas esperanças
Castigue com rigor,
E contra ti se acenda o fero Amor?

Olha a fermosa Flora;
De despojos de mil suspiros rica,
Por o Capitão chora
Que lá em Tessália, enfim, vencido fica,
E foi sublime tanto
Que altares lhe deu Roma e nome santo.

Olha em Lesbos aquela
No seu salteiro insigne conhecida:
Dos muitos que por ela
Se perderam, perdeu a cara vida
Na rocha que se infama
Com ser remédio extremo de quem ama.

Por o moço escolhido,
Onde mais se mostraram as três Graças;
Que Vénus escondido
Pera si teve um tempo antre as alfaças,
Pagou coa morte fria
A má vida que a muitos já daria.

E, vendo-se deixada
Daquele por quem tantos já deixara,
Se foi, desesperada,
Precipitar da infame rocha cara;
Que o mal de mal querida
Sabe que vida lhe é perder a vida.

Tomai-me, bravos mares;
Vós me tomai, pois outrem me deixou!
Disse: e dos altos ares.
Pendendo, com furor se arremessou.
Acude tu, suave,
Acude, poderosa e divina ave!

Toma-a nas asas tuas,
Minino pio, ilesa e sem perigo,
Antes que, nessas cruas
Águas caindo, apague o fogo antigo.
É dino amor tamanho
De viver e ser tido por estranho.

Não; que é rezão que seja
Pera as lobas isentas, que amor vendem,
Exemplo onde se veja
Que também ficam presas as que prendem.
Assi o deu por sentença
Némesis, que Amor quis que tudo vença.