Detém um pouco, Musa, o largo pranto

À Lua
Detém um pouco, Musa, o largo pranto
Que Amor te abre do peito;
E, vestida de rico e ledo manto,
Demos honra e respeito,
Àquela cujo objeito
Todo o Mundo alumia,
Trocando a noute escura em claro dia.

- Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
Cos teus raios de prata
A noute escura fazes que não possa
Encontrar o que trata,
E o que n'alma retrata,
Amor, por teu divino
Rosto, por que endoudeço e desatino;

Tu, que de fermosíssimas estrelas
Coroas e rodeias
Tua cândida fronte e faces belas,
E os campos fermoseias
Coas rosas que semeias,
Coas boninas que gera
O teu celeste humor na Primavera;

Pera ti, guarda o sítio fresco de Ílio
Suas sombras fermosas;
Pera ti, o Erimanto e o lindo Pílio
As mais purpúreas rosas;
E as drogas mais cheirosas
Deste nosso Oriente
Guarda a Felice Arábia mais contente.

De qual pantera, ou tigre, ou leopardo
As ásperas entranhas
Nao temeram teu fero e agudo dardo,
Quando por as montanhas,
Mui remotas e estranhas
Ligeira atravessavas,
Tão fermosa que Amor de amor matavas?

Pois, Délia, do teu céu vendo estás quantos
Furtos de puridades,
Suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
As conformes vontades,
Ũas por saudades,
Outras por crus indícios
Fazem das próprias vidas sacrifícios;

Já vejo Endimião por estes montes,
O céu, suspenso, olhando,
E o teu nome, cos olhos feitos fontes,
Em vão sempre chamando,
Pedindo e suspirando,
Mercês à tua beldade,
Sem que ache em ti ũa hora de piadade.

Por ti feito pastor de branco gado
Nas selvas solitárias,
Só de seu pensamento acompanhado,
Conversa as alimárias,
De todo amor contrárias,
Mas não, como ti, duras,
Onde lamenta e chora desventuras.

Das castas virgens sempre os altos gritos,
Clara Lucina, ouviste,
Renovando-lhe as forças e os espritos;
Mas os daquele triste
Já nunca consentiste
Ouvi-los um momento,
Pera ser menos grave o seu tormento.

«Não fujas, não de mim! Ah! não te escondas
Dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
E como o velho Atlante
O seu colo arrogante
Move piadosamente,
Ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mim! Que alcanço por queixar-me,
Pois minhas queixas digo
A quem já ergueu a mão pera matar-me
Como a cruel imigo;
Mas eu meu Fado sigo,
Que a isto me destina
E que isto só pretende e só me ensina.

Oh! quanto há já que o céu me desengana!
Mas eu sempre porfio
Cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
Não fujo o desvario;
Porque este em que me vejo
Engana coa esperança o meu desejo.

Oh! quanto milhor fora que dormissem
Um sono perenal
Estes meus olhos tristes, e não vissem
A causa de seu mal
Fugir, a um tempo tal,
Mais que dantes proterva,
Mais cruel que ussa, mais fugaz que cerva!

Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
Com mil mortes ao lado,
E quando mouro mais, então mais vivo!
Porque tem ordenado,
Meu infelice Fado,
Que, quando me convida
A morte, pera a morte tenha vida.

Secreta noute amiga, a quem obedeço,
Estas rosas (porquanto
Meus queixumes me ouviste) te ofereço,
E este fresco amaranto,
Húmido inda do pranto,
E lágrimas da esposa
Do cioso Titão, branca e fermosa.»