Já a calma nos deixou
Já a calma nos deixou
Sem flores as ribeiras deleitosas;
Já de todo secou
Cândidos lírios, rubicundas rosas;
Fogem do grave ardor os passarinhos
Pera o sombrio emparo de seus ninhos.
Meneia os altos freixos
A branda viração, de quando em quando,
E, dantre os vários seixos,
O líquido cristal sai murmurando;
As gotas, que das alvas pedras saltam,
O prado, como pérolas, esmaltam.
Da caça já cansada,
Busca a casta Titânica a espessura,
Onde, à sombra inclinada,
Logre o doce repouso da verdura,
E sobre o seu cabelo ondado e louro
Deixe cair o bosque o seu tesouro.
O céu desimpedido
Mostrava o lume eterno das estrelas;
E de flores vestido
O campo, brancas, roxas e amarelas,
Alegre o bosque tinha, alegre o monte,
O prado, o arvoredo, o rio, a fonte.
Porém, como o minino,
Que a Júpiter por a águia foi levado,
No cerco cristalino
For do amante de Clície visitado,
O bosque chorará, chorará a fonte,
O rio, o arvoredo, o prado, o monte.
O mar, que agora, brando,
É das Nereidas cândidas cortado,
Logo se irá mostrando
Todo em crespas escumas empolado,
O soberbo furor de negro vento
Fará por toda parte movimento.
Lei é da Natureza
Mudar-se desta sorte o tempo leve;
Suceder à beleza
Da Primavera o fruito; a ele a neve;
E tornar outra vez, por certo fio,
Outono, Inverno,Primavera, Estio.
Tudo, enfim, faz mudança,
Quanto o claro Sol vê, quanto alumia;
Não se acha segurança
Em tudo quanto alegra o belo dia;
Mudam-se as condições, muda-se a idade,
A bonança, os estados e a vontade.
Somente a minha imiga
A dura condição nunca mudou,
Pera que o mundo diga
Que nela lei tão certa se quebrou;
Em não ver-me ela só sempre está firme,
Ou por fugir de Amor, ou por fugir-me.
Mas já sofrível fora
Que em matar-me ela só mostre firmeza,
Se não achara agora
Também em mim mudada a natureza;
Pois sempre o coração tenho turbado,
Sempre de escuras nuvens rodeado.
Sempre exp'rimento os fios
Que em contino receio Amor me manda;
Sempre os dous caudais rios,
Que em meus olhos abriu quem nos seus anda,
Correm, sem chegar nunca o Verão brando,
Que tamanha aspereza vá mudando.
O Sol sereno e puro
Que no fermoso rostro resplandece,
Envolto em manto escuro
Do triste esquecimento, não parece,
Deixando em triste noute a triste vida,
Que nunca de luz nova é socorrida.
Porém, seja o que for:
Mude-se, por meu dano, a Natureza;
Perca a inconstância Amor;
A Fortuna inconstante ache firmeza;
Tudo mudável seja contra mi,
Mas eu firme estarei no que emprendi.
