Eu vivia de lágrimas isento

Eu vivia de lágrimas isento,
Num engano tão doce e deleitoso,
Que em que outro amante fosse mais ditoso
Não valiam mil glórias um tormento.

Vendo-me possuir tal pensamento,
De nenhũa riqueza era invejoso;
Vivia bem, de nada receoso,
Com doce amor e doce sentimento.

Cobiçosa a Fortuna, me tirou
Deste meu tão contente e alegre estado,
E passou-se este bem, que nunca fora;

Em troco do qual bem só me deixou
Lembranças, que me matam cada hora,
Trazendo-me à memória o bem passado.