Auto dos Anfitriões – Ato III
Vai-se Sósia e vem Júpiter e Almena, e diz Júpiter:
Toda a pessoa descreta
terá, senhora, assentado
que um bem muito desejado
se há de alcançar por dieta
pera ser sempre estimado.
E quem alcançado tem
tamanho contentamento
por conservá-lo convém
que tome por mantimento
a fome de tanto bem.
Por isso hei de tomar
este tempo tam ditoso
pera a frota visitar
e depois quando tornar
tornarei mais desejoso,
que pois tam bom cativeiro
me tem presa a liberdade
eu lhe prometo em verdade
que torne ainda primeiro
que mo peça a saudade.
Almena: Ainda que possa ir
mais asinha do que creo,
como hei de consentir
que se haja de partir
na mesma noite que veio?
Júpiter: Forçada é minha tornada,
mas muito cedo virei
porque dês que foi chegada
a este porto a armada
ainda a nam vesitei.
Almena: Pois, senhor, tam pouco estais
com quem vistes inda agora?
Faça-se como mandais.
Júpiter: Vós me vereis cá, senhora,
primeiro do que cuidais.
Vão-se e vem Anfatrião e Sósia, e diz Anfatrião:
Enfim, tu que estás aqui
estavas já lá primeiro?
Sósia: Señor, crea qu’es ansí.
Anfatrião: Eu nunca entendi de ti
que eras também chocarreiro.
Sósia: Señor, yo qu’estoy presente
no soy Sosia su criado?
Anfatrião: Creo que não, certamente,
porque Sósia era avisado
e tu és mui diferente.
Sósia: Pues, señor, en mí se ve
que no soy quién dantes era,
vuélvome.
Anfatrião: E para quê?
Sósia: Ver se a dicha me quedé
dormiendo por la galera.
Anfatrião: Pois me queres fazer crer
ũa doudice tam rasa,
mais quero de ti saber
como não entraste em casa
d’Almena, minha molher?
Sósia: Aunque Sosia quisiese,
la verdad no negará:
aquel yo que allá está
no quiso que a casa fuese
estotro yo que iba allá.
Y con furia tan crecida
a mí se vino aquel hombre
que yo me puse en huida,
y ansí le dexé mi nombre
por me dexar él la vida.
Anfatrião: Quem seria tam ousado
que tanto mal te fizesse?
Sósia: Yo mismo, Sosia llamado,
que a casa era ya llegado
antes que de acá partiese.
Anfatrião: Tu chegaste antes de ti?
Este é gentil desbarate.
Sósia: Pues más le digo de aquí
que vengo huyendo de mí
por que yo mismo no me mate.
Anfatrião: Eram dous ou era um só
quem te fez assi fogir?
Sósia: Pésete quién me parió,
digo que era un sólo yo,
mil veces lo he de decir?
Puede ser que nacería
daquel hombre otro alguno
como aquel de mí nacía,
porque aunque fuese uno
por más de cuatro tenía.
Él tenía mi aparencia,
empero yo nunca vi
tal fuerza ni tal potencia,
esta sola diferencia
le tengo hallado de mí.
Anfatrião: Pudeste dele saber
cujo era?
Sósia: Quién? Aquél yo?
Tuyo, señor, dijo ser.
Anfatrião: Nunca eu tive mais que um só,
e esse nam quisera ter.
Sósia: Pues, señor, si el bien doblado
te lo muestra agora Dios
debe ser de ti alabado,
pues de un solo criado
te ha hecho agora dos.
Anfatrião: Antes pera que conheças
que cousa é mau servidor
me pesará se assi for,
que de tam roins cabeças
quantas más tanto pior.
E já que são tam incertos
teus ditos pera se crer
muito milhor deve ser
que dexe teus desconcertos
e vá ver minha molher.
Vão-se e entra Almena e diz:
Que fado, que nacimento
de gente humana nacida,
que d’escasso e avarento
nunca consentiu na vida
perfeito contentamento.
Anfatrião, que mostrou
um prazer tam desejado
a quem tanto o desejou,
na noite que foi chegado
nessa mesma se tornou.
De se tornar tam asinha
sinto tanto intristecer
o sentido e alma minha
que certo que me adevinha
algum novo desprazer.
Mas parece este que vem,
se não estou enganada.
Se ele é, venha com bem
pois que com sua tornada
tão trestornada me tem.
Entra Anfatrião e Sósia, e diz Anfatrião:
Com que palavras, senhora,
poderei engrandecer
tão soblimado prazer
como é ver chegada a hora
em que vos pudesse ver?
Certo gram contentamento
tive de meu vencimento,
mas maior o hei de mim,
de me ver posto na fim
de tão longo apartamento.
Almena: Já eu disse o que sentia
de vinda tam desejada.
Mas diga-me, todavia:
como nam foi ver a armada
que me disse hoje este dia?
Anfatrião: De lá venho eu inda agora,
desejoso de vos ver
muito mais que de vencer.
Mas que me dizeis, senhora,
que hoje me ouvistes dizer?
Almena: Se não estava remota,
certamente que lhe ouvi
quando hoje partiu daqui,
que tornava a ver a frota,
que era forçado assi.
Anfatrião: Sósia.
Sósia Señor, aquí estoy yo.
Anfatrião: Tu ouves tal desconcerto?
Sósia: Grandes orejas ganó,
pues estando en casa oyó
quien estaba allá nel puerto.
Anfatrião: Quando dizeis que me ouvistes?
Almena: Hoje, quando vos partistes.
Anfatrião: Donde?
Almena: Daqui, de me ver.
Anfatrião: Nunca vi grande prazer
que nam tenha os cabos tristes.
Quantos males d’improviso
que causam grandes mudanças,
que molher de tanto aviso
agora minhas lembranças
a tem fora de juízo.
Almena: Quereis-me fazer cuidar
que poderia sonhar
o que pelos olhos vi?
Nunca vos eu mereci
quererdes-me exprimentar.
Anfatrião: Posto que é pera pasmar
ver um caso tam estranho,
todavia hei de atentar
se poderei concertar
um desconcerto tamanho.
Quando dizeis que vim cá?
Almena: Esta noite que passou.
Anfatrião: Dai-me alguém que aqui se achou
que me visse.
Almena: Esse que aí está.
Sósia, que convosco andou.
Anfatrião: Sósia, podes-te lembrar
que ontem me viste aqui?
Sósia: Nunca yo supe de mí
que me pudiese acordar
daquello que nunca vi.
Almena: Ora eu creo e é assi
que ambos vindes conjurados
para zombardes de mi,
mas eu darei hoje aqui
sinais que sejam provados.
Anfatrião: Que sinais pode i haver
de mentira tam notória,
que nem foi nem pode ser?
Almena: Donde vim eu a saber
novas de vossa vitória?
Anfatrião: Que novas?
Almena: Dir-vo-las-ei
assi como mas contastes:
que na batalha matastes
aquele soberbo rei
e tudo desbaratastes,
não fazendo resistência
nũa batalha tam crua,
dando-vos obediência
vos deram ũa copa sua
lavrada por exelência.
Anfatrião: Sósia é culpado só
nestes acontecimentos.
Sósia: Señor, son encantamientos,
porque aquel hombre que es yo
le contaría estos cuentos.
Anfatrião: Quem é esse que vos deu
tais novas saber queria.
Almena: Quem mo pergunta.
Anfatrião: Quem? Eu?
Quereis-me fazer sandeu?
Almena: Mas vós me fazeis sandia.
Anfatrião: Ora quero perguntar:
que fiz sendo aqui chegado?
Almena: Pusemo-nos a cear.
Anfatrião: E depois de ter ceado?
Almena: Fomo-nos ambos deitar.
Anfatrião: Nunca queira Deos que possa
achar-se na minha honra
nenhũa falta nem mossa.
Seja isso doudice vossa
antes que minha desonra.
Sósia: Bien lo supe yo entender
que era esto encantaciones,
y ahora me habrá de crer
que dos Sosias puede haber
pues hay dos Anfatriones.
Almena: Com me quererdes tentar
tam trovada me fezestes
que me nam pôde lembrar
que vos mandasse mostrar
a copa que me ontem destes.096a
Anfatrião: Eu? Copa? Se isso aí há
que estou doudo cudarei.
Sósia: Señor, bien guardada está.
Almena: Brómia.
Brómia: Senhora.
Almena: Dai cá
a copa que ontem vos dei.
Sósia: Pues yo parí otro yo
y vos otro Enfatrión,
no es mucha admiración
si la copa otra parió,
ni aun fuera de razón.
Entra Brómia co a copa e diz:
Eis aqui a copa vem,
testemunho da verdade.
Anfatrião: Oh estranha novidade.
Almena: Poder-me-á dezir alguém
que o que digo é falsidade?
Anfatrião: Sósia, quando ontem cá vinhas
poder-me-ás negar, ladrão,
que lhe deste as novas minhas
e mais a copa que tinhas
guardada na tua mão?
Sósia: Señor, que no pude, no,
ver a mi señora Almena,
si aquél eso acá ordenó
no lleve este yo la pena
del mal que hizo el otro yo.
Anfatrião: Ora eu nam sei entender
tal caso nem lhe acho fundo.
Contudo, venho a dizer
que há tantos males no mundo
que tudo se pode crer.
Se vos trouxer quem vos diga
que esta noite dormi
na nau, crereis que é assi?
Almena: Nenhũa cousa me obriga
a que não crea o que vi.
Anfatrião: Se o patrão aqui vier,
que é homem d’autoridade,
crereis o que vos disser?
Almena: Sim, que ninguém pode haver
que me negue esta verdade.
Anfatrião: Eu estou em concrusão
d’hoje desembaraçar
tam enleada questão.
À nau me quero tornar
a trazer cá Belferrão.
Sósia, até minha tornada
fica nesta casa em vela,
qu’eu armarei tal cilada
a quem m’a mim tem armada
que venha hoje a cair nela.
Vai-se e diz Almena:
Oh molher triste e suspensa
da mais alta confusão
que nunca viu coração,
em que mereces a ofensa
que te faz Anfatrião?
Sempre de mim foi amado
tanto quanto em mi se sente
c’o coração tam liado
que se de mim era ausente
nele o via fegurado.096c
E pois molher que comprisse
milhor qu’eu fedelidade
não na vi, nem quem me visse
que dos lemites saísse
um ponto da honestidade.
Pois por que é tão maltratada
inocência tam singela?
Que a pena mais apertada
é a culpa levantada
ao coração livre dela.
Mas já que minh’alma está
sem culpa do que padeço
seja o que for, qu’eu conheço
que a verdade me porá
no qu’eu pelo ter mereço.
Brómia!
Brómia: Senhora.
Almena: I mandar
a Feliseu que vá
meu primo Aurélio chamar,
que lhe quero perguntar
que conselho me dará.
E pois que Enfatrião
vai buscar somente quem
lhe ajude a sua tenção,
quero eu ter aqui também
quem me defenda a rezão.
