Auto dos Anfitriões – Ato IV
Vai-se Brómia e vem Júpiter, e diz Júpiter:
Gram desconcerto tem feito
Anfatrião com Almena.
Qualquer deles tem dereito,
eu sou o que venço o preito096d
e ambos pagam a pena.
Quero-me ir lá desfazer
tam trabalhosa demanda
por nos tornarmos a ver,
porqu’enfim quem muito quer
com qualquer desculpa abranda.
E pois que a afeição
há de mudar tam asinha,
quero ir alcançar perdão
da culpa que, sendo minha,
parece d’Anfatrião.
Almena: Parece que torna cá
Anfatrião que já se ia.
Nam sei a que tornará,
senão se lhe pesa já
dos enganos que tecia.
Júpiter: Senhora, nam haja error
que tantos males me faça,
porque se o contrário for
pequeno será o amor
que manencória desfaça.
E pois com tanta alegria
de tantos perigos vim,
pesar-me-á se achar no fim
que ũa leve zombaria
vos possa agravar de mim.
Almena: Com palavras de desonra
nam se há de tratar quem ama,
nem zombaria se chama,
por exprementar a honra,
pôr em tal perigo a fama.
Bem tive eu pera mi
que era aquilo experiência.
Júpiter: Errei no que cometi,
bem me basta a penitência
de quanto me arrependi.
E se fiz algum error
com que vosso amor se mude
de quem vo-lo tem maior
não exprementei vertude
mas exprementei amor.
Que se com caso tam vário
folguei de vos agastar
foi amor acrecentar,
porque às vezes um contrairo
faz seu contrário aviar.
Daqui vem que a leve mágoa
firmeza, afeições, aumenta,
como bem se vê na frágua
onde o fogo se acrecenta
borrifando-o com pouca água.
Se um mal grande se alevanta
num coração que maltrata
a afeição desbarata,
porque onde a água é tanta
o fogo d’amor se mata.
E pois tive tal tenção,
perdoai, senhora, a culpa
deste vosso coração.
Almena: Não se alcança assi perdão
d’erro que nam tem desculpa.
Júpiter: Ora pois assi tratais
quem em tanto risco pôs
o amor que vós negais?
Eu m’ausentarei de vós
onde mais me não vejais.
Que pois desculpa não tem
coração que tanto quer
vou-me, que não será bem
que quem vós nam podeis ver
que possa mais ver ninguém.
Se algũa hora meu cuidado
vos der dor, em que pequena,
peço-vos, pois fui culpado,
que vos não pese da pena
de quem vos foi tão pesado.
E depois que a desventura
puser este coração
debaxo da sepultura,
as letras na pedra dura
vossa dureza dirão.
Isto vos hei de dizer,
que m’ensinou minha dor:
se quiserdes leda ser
nunca exprementeis amor
em quem vo-lo não tever.
Deixai-me ir, não me tenhais.
Almena: Anfatrião, nam choreis,
Anfatrião!
Júpiter: Que quereis,
ou pera que nomeais
homem que ver não podeis?
Almena: Anfatrião, s’eu causei,
com manencória pequena
cousa com que o magoei,
eu quero cair na pena
dessa culpa que lhe dei.
Júpiter: Sempre serei magoado
se vossa má condição
me não perdoa o passado.
Almena: Perdoo, e peço perdão
de lhe não ter perdoado.
Sósia: No le perdone, señora,
hasta que con devoción
también me pida perdón,
que bien se me acuerda ahora
que me ha llamado ladrón.
Júpiter: Sósia.
Sósia: Señor.
Júpiter: Vai buscar
o piloto Belferrão,
dir-lh’-ás, se desembarcar,
que me parece rezão
que venha hoje cá cear.
Sósia: Sí, señor, voy a la hora.
Júpiter: De nenhũa calidade
cures de fazer demora.
E nós vamo-nos, senhora,
confirmar nossa amizade.
Vão-se e vem Mercúrio e diz:
Grandes reboltas vão lá,
grandes acontecimentos,
cumpre-me que esteja cá
enquanto meu pai está
em seus desenfadamentos.
Porque vejo Anfatrião
vir da nau mui apressado
e tendo corrido e andado
nam pôde achar Belfarrão,
que lhe era bem escusado.
Parece-me que virá
ver se lhe abre aqui alguém,
mas, porém, se chega cá
já pode ser que se vá
mais confuso do que vem.
Entra Anfatrião e diz:
Quis-nos nossa natureza
com tal condição fazer
que já temos por certeza
não haver grande prazer
sem mestura de tristeza.
Este decreto espantoso
que instituiu nossa sorte
é tal e tam regoroso
que ninguém antes da morte
se pode chamar ditoso.
Com esta justa balança
o fado grande profundo
nos refrea a esperança,
por que ninguém neste mundo
busque bem-aventurança.
Eu, que cuidei de viver
sempre contente de mi
com tamanho rei vencer,
venho achar minha molher
de todo fora de si.
Mas doutra parte que digo?
Que s’é verdade o que vi
e o qu’ela diz é assi
virei a cuidar comigo
que eu sou o fora de mi.
Quero ver se a acho já
fora de tam secos nós.
Ou de casa.
Mercúrio: Oh de allá.
Quién sois?
Anfatrião: Abre.
Mercúrio: Santo Dios,
pues no os conocen acá.
Anfatrião: Oh que gentil desvario,
abri-me ora, se quiserdes.
Mercúrio: No haré, que en mí confío.
Que de fuera dormiredes
que no comigo, amor mío.
Qué canción para oír.
Anfatrião: Ah Sósia, zombas de mi?
Ora quero-me fengir
que ainda o nam conheci
por ver se me quer abrir.
Ah senhor, não abrireis?
Mercúrio: Qué queréis, hombre por Dios?
Anfatrião: Duas palavras de vós.
Mercúrio: Tengo dicho más de seis
y ahora me pedís dos?
De fuera podéis dormir,
que no podéis entrar acá.
Anfatrião: Ora acabai, abri lá.
Mercúrio: Digo que no quiero abrir,
dixe dos palabras ya.
Anfatrião: Ora sus, bargante, abri.
Mercúrio: Si no te vuelves de aquí
a gran peligro te ofreces.
Anfatrião: Velhaco, nam me conheces
ou estás fora de ti?
Mercúrio: Bonico venís amor.
Quién sois, que habláis tan osado?
Anfatrião: Abre, que sou teu senhor.
Mercúrio: Vuélvase desotro lado
y conocerle he mejor.
Anfatrião: Sósia, moço.
Mercúrio: Así me llamo.
Huélgome que lo sepáis,
empero digo que os vais
que Enfatrión es mi amo.
Vos i buscar quien seáis.
Anfatrião: Pois quero saber de ti:
eu que sou?
Mercúrio: Y quién sois vos?
Cómo os llaman?
Anfatrião: Abri.
Mercúrio: A vos os llaman Abrí?
Pues, Abrí, andá con Dios.
Anfatrião: Quem há que possa sofrer
em sua honra tal destroço
que pera me endoudecer
me tem negado a molher
e agora me nega o moço.
Mercúrio: Mirá el encantador
cómo se lastima y llora,
y fuese tomar ahora
la forma de mi señor
para engañar mi señora.
Pues esperá y no os vais,
por un espacio pequeño
verná quién representáis
y él os hará que volváis
el falso gesto a su dueño.
Anfatrião: Vai, velhaco, e chama cá
esse falso feiticeiro,
que se ele lá dentro está
esta espada julgará
qual de nós é o verdadeiro.
Vai-se Mercúrio e vem Sósia e Belferrão, e diz Belferrão:
Ora ninguém presumira
que tinhas tam pouco siso,
pois vás achar d’emproviso
tam bem forjada mentira
que me faz cair de riso.
Um moço que alevantou
tal graça nunca naceu,
porque vos jura que achou
que ou ele em dous se perdeu
ou de um dous se tornou.
Sósia: Patrón, que no burlo, no,
en uno son dos unidos
y en dos cuerpos repartidos,
yo soy él y él es yo
de un padre y madre nacidos.
Belferrão: Esse tu que lá estás
tam velhaco é como ti?
Sósia: Mas aún, pienso que es más.
Por delante y por detrás
todo se parece a mí.
Y fue gran mercé de Dios
ayuntar a mí más uno,
que peor fuera de nos
si Dios me hiciera ninguno
que no de uno hacer dos.
Belferrão: Assi que se te perdeste
vieste a cobrar mais um.
Mui gentil conta fizeste
pois que perdido soubeste
que eras dous sendo nenhum.
Sósia: Pues tenéis por abusión
verdad tan clara y tan rasa,
aunque pone admiración,
quiera Dios que allá en casa
no halléis otro patrón.
Anfatrião: O patrão que fui buscar
parece que vejo vir,
não sei quem o foi chamar.
Mas que me há de aporveitar
se me não querem abrir?
Ah Belferrão.
Belferrão: Ah senhor,
já sinto que fui culpado,
porque quem é convidado
se tam vagaroso for
merece não ser chamado.
Anfatrião: A vós quem vos convidou?
Belferrão: Sósia, por mandado seu.
Anfatrião: Disso, patrão, não sei eu,
que Sósia já me negou
e já se nam dá por meu.
E se alguém vos foi dizer
qu’eu vos chamo a minha mesa,
mal vos dará de comer
quem de todo lh’é defesa
a casa e mais a molher.
Belferrão: Quem é esse tão ousado
que vos isso faz, senhor?
Anfatrião: Sósia, creo que enganado
por algum encantador
que a honra me tem roubado.
Belferrão: Se ele aqui comigo vem
isso como pode ser?
Anfatrião: Ah, que a ira que vou ter
tam cega a vista me tem
que mo não deixava ver.
Por que rezão, cavaleiro,
não me abris quando vos mando?
Vós fazeis-vos chocarreiro?
Sósia: Yo, señor? Y cómo? Y cuándo?
Anfatrião: Quereis-lo saber primeiro?
Esperai, dir-vo-lo-á
mas será por outro som.
Sósia: Ah, señor Anfatrión,
por qué matándome está
sin delito y sin razón?
Anfatrião: Agora que vos eu dou
me chamais Anfatrião
e pera me abrirdes não?
Belferrão: Este moço em que pecou?
Por que pena sem rezão?
Nô mais, por amor de mi.
Anfatrião: Não, que nam sou seu senhor
eu sou um encantador.
Não no dizeis vós assi
ladrão, perro, enganador?
Sósia: Porque fui presto a llamar,
por su mandado, al patrón,
me quiere ora matar.
Anfatrião: Quem vo-lo mandou buscar?
Sósia: Si no hay otro Anfatrión
vuestra mercé sin dudar.
Anfatrião: Eu te mandei?
Sósia: Sí, señor,
si otro no.
Anfatrião: Outro há qui
por quem tu zombes de mi?
Pois só desse encantador
me quero vingar de ti.
Sósia: Oh, Júpiter, a quién bramo,
por su bondá que me vala,
pues porque Sosia me llamo
yo mismo y después mi amo
me dieron venida mala.
