Auto de Filodemo – Ato III

Vão-se todos e entra Florismena, pastora, com um pote que vai à fonte, e diz:

Por este fermoso prado
tudo quanto a vista alcança
tam alegre está tornado
que a qualquer desesperado
pode dar certa esperança.
O monte e sua aspereza
de flores se veste ledo
reverdece o arvoredo.
Somente em minha tristeza
está sempre o tempo quedo.

Junto desta fonte pura
segundo a muitos ouvi
d’altos parentes naci
foi como quis a ventura
mas não como eu mereci.
O dia que fui nacida
minha mãe do parto forte
foi, sem cura, falecida
e o dia que me deu vida
lhe dei eu a ela a morte.

Do mesmo parto naceu
meu irmão que antre os cabritos
comigo também viveu
mas assi como creceu
creceram nele os espritos.
Foi-se buscar a cidade
teve juízo e saber
eu fiquei como molher
e nam tive faculdade
pera poder mais valer.

A um pastor obedeço
por pai que doutro nam sei
e pola mãe que matei
a ũa cabra conheço
de cujo leite mamei.
Mas porém já qu’este monte
me obriga meu nacimento
quero pois quer meu tromento
encher a talha na fonte
que c’os olhos acrecento.

Enquanto finge que enche a talha entra Vanadoro, e diz:

Pois que me vim alongar
dos caminhos e da gente
fortuna que o consente
se devia contentar
de me ter tam descontente.
Porém, segundo adevinho
por tam espesso arvoredo
por tam áspero rochedo
quanto mais busco o caminho
tanto mais dele me arredo.

O cavalo como amigo
já cansado me trazia
mas deixou-me todavia
que mal pudera comigo
quem consigo nam podia.
Quero-me aqui assentar
à sombra, nesta ervinha
porque canso já de andar
mas inda a fortuna minha
não cansa de me cansar.

Junto desta fonte pura
não sei quem cuido qu’está
mas no coração me dá
que aqui me guarda a ventura
algũa ventura má.
Ou ganhado ou bem perdido
faça enfim o que quiser
que eu o fim disto hei de ver
que já venho apercebido
a tudo quanto vier.

Oh que fermosa serrana
à vista se me oferece
deosa dos montes parece
e se é certo que é humana
o monte não na merece.
Pastora tão delicada
de gesto tão singular
parece-me que em lugar
de perguntar pola estrada
por mim lh’hei de perguntar.

Até qui sempre zombei
de qualquer outra pessoa
que afeiçoada topei
mas agora zombarei
de quem se não afeiçoa.
Serrana cuja pintura
tanto alma me moveu
dizei-me por qual ventura
andareis nesta espessura
merecendo estar no céu.

Florimena: Tamanho inconveniente
andar na serra parece?
Pois a ventura da gente
sempre é mui diferente
do que ao parecer merece.
Vanadoro: Tal reposta é manifesto
não se parecer co as cabras
pois não vos parece honesto
saberdes matar c’o gesto
senão inda com palavras?

No mato, tudo rudeza
há tal gesto e descrição?
Não no creio.
Florimena: Por que não?
Não suprirá natureza
onde falta criação?
Vanadoro: Já logo nisso, senhora
dizeis se não sinto mal
que do vosso natural
não era serdes pastora.
Florimena: Digo mas pouco me val.

Vanadoro: Pois quem vos pôde trazer
à conversação do monte?
Florimena: Perguntai-o a essa fonte
que as cousas duras de crer
um as faça, outro as conte.
Vanadoro: Esta fonte que está aqui
que sabe do que dizeis?
Florimena: Senhor, mais não pergunteis
porque outra cousa de mi
sabei que nam sabereis.

De vós agora sabei
o que nam tendes sabido:
se quereis água bebei
se andais por dita perdido
eu vos encaminharei.
Vanadoro: Senhora, eu não vos pedia
que ninguém m’encaminhasse
que o caminho que eu queria
se o eu agora achasse
mais perdido me acharia.

Não quero passar daqui
e não vos pareça espanto
que em vos vendo me rendi
porque quando me perdi
não cuidei de ganhar tanto.
Florimena: Senhor, quem na serra mora
também entende a verdade
dos enganos da cidade.
Vá-se embora ou fique embora
qual for mais sua vontade.

Vanadoro: Oh lindíssima donzela
a quem ventura ordena
que me guie como estrela
quereis-me deixar a pena
e levar-me a causa dela.
E já que vos conjurastes
vós e amor para matar-me
oh não deixeis d’escutar-me
pois a vida me tirastes
não me tireis o queixar-me.

Que eu em sangue e em nobreza
o claro céu me extremou
e a fortuna me dotou
de grandes bens e riqueza
que sempre a muitos negou.
Andando caçando aqui
após um cervo ferido
permetiu meu fado assi
que andando dos meus perdido
me venha perder a mi.

E por que inda mais passasse
do que tinha por passar
buscando quem m’ensinasse
por que via me tornasse
acho quem me faz ficar.
Que vingança permetiu
a fortuna num perdido
oh que tirano partido
que quem o cervo feriu
vá como cervo ferido.

Ambos feridos num monte
eu a ele, outrem a mi
ũa deferença há aqui:
Qu’ele vai sarar à fonte
e eu nela me feri.
E pois que tam transformado
me tem vossa fermosura
um de nós troque o estado:
ou vós para povoado
ou eu para a espessura.

Florimena: Dos arminhos é certeza
se lhe a cova alguém sujar
morar fora antes d’entrar.
D’estimar muito a limpeza
pola vida a vai trocar.
Também quem na serra mora
tanto estima a honestidade
que antes toma ser pastora
que perder a castidade
a troco de ser senhora.
Se mais quereis, esta fonte
vos descubra o mais de mi
o que ela viu ela o conte
porque eu vou-me para o monte
que há já muito que vim.

Vai-se Florismena e diz Vanadoro:

Ó linda minha enemiga
gentil pastora esperai
pois a tanto amor me obriga
consenti-me que vos siga
vá o corpo onde alma vai.

E pois por vós me perdi
e neste estado amor me pôs
os olhos com que vos vi
pois os deixastes sem mi
oh não os deixeis sem vós.
Porque a fortuna me dixe
que nas serras onde andais
em estes extremos tais
não era bem que vos visse
para não ver de vós mais.

E pois amor se quis ver
da livre vida vingado
em que eu soía viver
faça em mim o que quiser
que aqui vou ao jugo atado.

Vai-se Vanadoro após de Florimena e entra dom Lusidardo, seu pai, que quer ir em sua busca, e o Monteiro e Filodemo, e diz dom Lusidardo:

Oh santo Deos verdadeiro
a que o mundo obedece.
Meu filho não aparece
ou que me dizeis Monteiro?
Monteiro: Digo-lhe que m’entristece
que eu corri por esses montes
bem quinze léguas ou mais
e busquei pelos casais
por serras, montes e fontes
sem ver novas nem sinais.

Toda a gente que levou
buscando-o muito cansada
pelo mato anda espalhada
mas ainda ninguém tornou
que soubesse dele nada.
Lusidardo: Oh fortuna nunca igual
quem me fará sabedor
de meu filho e meu amor?
Que se é muito grande o mal
muito mor é o temor.

Quem tolhe que não achasse
algum leão temeroso
nalgum monte cavernoso
que sua fome fartasse
em seu corpo tão fermoso?
Quem há que saiba ou que visse
que das montanhas erguidas
dalgum monte não saísse
e com seu sangue tengisse
as ervas nele nacidas?

Oh filho, vai-me alembrar
quantas vezes vos mandava
que leixásseis o caçar.
Não cuidei de adevinhar
o que fortuna ordenava.
Eu irei, filho, buscar-vos
por esses montes por i
ou perder-me ou cobrar-vos
que morte que quis matar-vos
quero que me mate a mi.

Onde fostes fenecido
seja também vosso pai
ser-me-á acontecido
como virote que vai
buscar outro que é perdido.
Vós só haveis de ficar
Filodemo, encarregado
para esta casa guardar
que de vosso bom cuidado
tudo se pode fiar.

Ide vós a fazer prestes
mandai cavalos selar
pois achá-lo não pudestes
ir-m’-eis mostrar o lugar
onde da vista o perdestes.

Vão-se e entra o Bobo com o vestido de Vanadoro, que lhe tomou Vanadoro o seu por se vestir de pastor, e diz cantando:

Los mochachos del obispo
no comen cosa mimosa
ni zanca d’araña ni cosa mimosa.

Fala: De su sayo colorado
tan lozano me vistió
y pues yo ya no soy yo
ya por otro estoy trocado
que este sayo me trocó.
Oh qué asno portogués
que loco por Florimena
deseó zamarra ajena
y dame por interés
una zamarra tan buena.

Como yo vi la bobilla
andar con él en cuistiones
y parársele amarilla
díxele: Florimenilla
andáis en dongolondrones?
Él me dixo: matalote
no tengáis dello desmayo.
Y en esto como un rayo
tomóme mi capirote
y dióme su capisayo.

Capirote en buena fe
si vos cuando en mí entrastes
capisayo vos tornastes
que yo por eso cantaré
pues ansí me mejorastes.

Canta: Lirio lirio lirio loco
con qué? Con capirotada.

Por hablar con la golosa
d’amores mirad la cosa
zamarrilla tan hermosa
que me han dado, tan honrada.
Con qué? Con capirotada.

Fala: Yo entonces respondí:
señor dame pan y queso?
Mas depués que lo entendí
dixe a ella: dale un beso
qu’él me dio zamarra a mí.
Agora me mirarán
cuantos a la iglesia fueren
y aquellos que no me quieren
ahora me rogarán.

Sabéis por qué no querré?
Porque estoy ahidalgado
y cuando fuere rogado
cantando responderé
que ya soy otro tornado.

Canta e baila:
Soropicote picote mozas
ahora quiero amores con vosotras.

Entra o pai e diz:
Hijo, Alonsillo.
Bobo: Hijo, Alonsillo.
Pastor: No me quieres escuchar?
Bobo: Pues déxame sospirar.
Pastor: Escúchame ora asnillo
lo que te quiero mandar.
Vete al Valle de las Rosas
di a Antón del Lugar
que se puede acá llegar
porque tengo muchas cosas
que importan para le hablar.

Porque es aquí llegado
a este valle un hombre honrado
mancebo de casta buena
que amores de Florimena
le traen loco y penado.
Dice que quiere casar
con ella, que su tromento
no le dexa reposar.
Y que venga festejar
tan dichoso casamiento.

Bobo: Decí padre: también vos
no queréis casar comigo?
Casemos ambos a dos.
Pastor: Ve y haz lo que te digo.
Bobo: Respondé padre por Dios.
Pastor: Ve luego y vuelve apresado
anda. No quieres andar?
Bobo: Pues me habéis empuxado
juro a mí de desandar
todo cuanto tengo andado.

Pastor: Trabajoso es este insano
nunca hace lo que queréis.
Bobo: Ora no os apaxonéis
mi padrecico lozano
que burlaba, y no lo veis?
Pastor: Vete d’ahí.
Bobo: Heme aquí.
Pastor: Ve donde te dixe.
Bobo: Ya vengo.
Oh que padrasto que tengo
que así me manda por ahí
siendo camino tan luengo.