Auto de Filodemo – Ato IV
Vão-se e entra Dionisa e Solina.
Dionisa: Oh Solina minha amiga
que todo este coração
tenho posto em vossa mão
amor me manda que diga
vergonha me diz que não.
Que farei?
Como me descobrirei?
Porque a tamanho tromento
mais remédio lhe não sei
que entregá-lo ao sofrimento.
Meu pai muito entristecido
se vai pela serra erguida
já da vida aborrescido
buscando o filho perdido
tendo a filha cá perdida.
Sem cuidar
foi a casa encomendar
a quem destruir lha quer.
Olhai que gentil saber
que vai comigo leixar
quem me não leixa viver.
Solina: Senhora, em tanto desgosto
não posso meter a mão
mas como diz o refrão
mais val vergonha no rosto
que mágoa no coração.
E bofé se tanto amasse
e visse tempo e sezão
sem seu pai, sem seu irmão
que a nuvem triste tirasse
de cima do coração.
Dionisa: Ah mana, que tenho medo
que s’eu em tal consentisse
que logo o mundo o sentisse
porque nunca houve segredo
que em fim se não descobrisse.
Solina: Se eu tantas dobras tevesse
como quantas houve erradas
sem que o mundo o soubesse
à fé qu’eu inriquecesse
e fosse das mais honradas.
Dionisa: Sabeis que tenho em vontade?
Solina: Que podeis senhora ter?
Dionisa: Falar-lhe só para ver
se é porventura verdade
o que dizeis que me quer.
Solina: Bofé mana dizeis bem
e eu o mandarei chamar
como para lhe rogar
que um anel que lá me tem
que mo mande consertar.
Dionisa: Dizeis mui bem.
Solina: Vou-me lá
chamar o seu moço à sala
e s’este parvo vem cá
com ele um pouco rirá
que sempre amores me fala.
Vilardo, moço.
Moço: Quem chama?
Solina: Vem cá moço, eu te chamo.
Qu’é de teu amo?
Moço: Ah que dama
perguntais-me por meu amo
e não por um que vos ama.
Solina: E quem é esse amador
que quer ter comigo passo?
Será ele algum madraço.
Moço: Eu sou mesmo, que o amor
me quebra pelo espinhaço.
E mais vós sabei de mi
se a dizê-lo me atrevo
que dês qu’esses olhos vi
que yo ni como ni bebo
ni hago vida sin ti.
E mais para namorado
não sam ora tão madraço.
Solina: Sois muito desmazalado.
Moço: Mas antes de delicado
caio pedaço a pedaço
e mais eu sofrer nam posso
que me façais tanto fero
qu’estou já posto no osso.
Porque sou vosso e revosso
por vida de quanto quero.
Solina: Feros está chea a rua.
Ora estou bem aviada
Moço: Copido por vida tua
que a nam faças tam crua
pois que te não faço nada.
Amor, amor más te pido
que quando se for deitar
que le digas al oído:
devíês-vos de lembrar
neste tempo dum perdido.
Solina: E tu fazes já coprinhas
ainda tu trovarás.
Moço: Quem eu? Por estas barbinhas
que se vós virdes as minhas
que digais que nam são más.
Solina: Ora pois me quereis bem
dizei-me ũa.
Moço: Ei-la aqui
e veja o saibo que tem
porqu’esta trovinha assi
saiba qu’é trova do acém.
Diz o Moço a trova:
Passarinhos que voais
nesta menhã tam serena
sabei que só minha pena
pode encher mil cabeçais.
Solina: O refão está salgado
essa pena te dou eu?
Moço: Vós e amor que de malvado
me tem milhor empenado
que nenhum virote seu.
Pois se me ouvíreis cantar...
Solina: E tu és também cantor?
Moço: Canto milhor que um açor.
Quereis que vos venha dar
musiqueta de primor?
E que vos mande tanger
muito milhor que ninguém?
Solina: Já isso quisera ver.
Moço: Querer-m’-eis se o eu fizer
algum pedaço de bem?
Solina: Querer-t’-ei trinta pedaços.
Moço: E esse querer dará fruito
que me tire destes laços?
Solina: E que fruito?
Moço: Dous abraços.
Solina: Esse fruito custa muito.
Moço: Esse é o amor que em vós há.
Pesar de minha mãe torta.
Solina: Ora i, chamai logo lá
vosso amo que venha cá
logo, que é cousa que importa.
Moço: Logo?
Solina: Logo nessas horas.
Moço: Não estarei aqui mais?
Solina: Não, ainda aí estais?
Vós haveis mister esporas.
Moço: Irei porque mo mandais.
Vai-se Vilardo e Solina e entra o Pastor e Vanadoro com ele feito pastor, e diz o Pastor:
Más de un mes es ya pasado
que en esta sierra andáis
y es caso mal mirado
que andéis guardando ganado
por una que tanto amáis.
Y si os determináis
en querer casar con ella
juro a mí que nada erráis
y si eso es para habella
en vano cabras guardáis.
Ya me distes vuestra fe
sábenlo estas sierras todas
yo con ella m’engañé
que luego mandar llamé
quien festejase las bodas.
Y agora decís con pena
qu’es dura cosa casar?
Pues volvéos norabuena
que no habéis d’engañar
con palabras Florismena.
Vanadoro: Quem há de ter coração
para tamanho temor
que em mim pegando estão
dũa parte a rezão
e doutra parte o amor.
Também vejo que perdê-la
será minha perdição
que bem me diz a afeição
que pouco faço por ela
pois não desfaço em quem sam.
Pastor: Dígoos si por baxeza
decís que no os conviene
daros he una certeza
que en sangue y en nobreza
tanto como vos la tiene.
Vanadoro: Pastor, digo que daqui
farei tudo o que quiserdes
e se mais quereis de mi
digo que vos dou o si
para tudo o que fizerdes.
Pastor: Dios os dé su bendición.
Y pues que casáis con ella
yo os afirmo en concrusión
que aún de vos y más della
verná gran generación.
Yo me voy por ella hijo
tomadla así mal compuesta
verná quien haga la fiesta
que en placer y regocijo
nos festeje esta floresta.
Vai-se o Pastor e fica Vanadoro falando só e diz:
Ó ribeiras tam fermosas
vales, campos pastoris
por que vos não revestis
de novas flores e rosas?
Se minha glória sentis
por que nam secais abrolhos?
E vós águas que regando
os olhos is alegrando
correi que também meus olhos
d’alegres estão manando.
Ah pastora em quem espero
poder viver descansado
contigo guardarei gado
que já eu sem ti não quero
nenhũa alteza d’estado.
Diga o que quiser a gente
tudo terei nũa palha
porque está craro e vidente
que não há honra que valha
contra a vida de contente.
Entram três pastores bailando e cantando de terreiro diante do Pastor que traz Florimena, e diz o Pastor:
Pues el amor os obliga
a que hagáis tan buena liga
tomando a Dios por testigo
daquí os la entrego amigo
por mujer y por amiga.
Vanadoro: Consentis nisto senhora?
Florimena: Senhor, em tudo consento.
Vanadoro: Oh grande contentamento.
Florimena: Saiba que nunca até agora
lhe houve enveja ao tromento.
Pai: Así lo decís bobilla?
Oh mala dolor os duela.
Pero no es maravilla
quien consiente ansí la silla
consienta también la espuela.
Tornam a bailar e cantar e acabado entra dom Lusidardo e o Monteiro que andam em busca de Vanadoro, e diz dom Lusidardo:
Três dias há já que ando
por essa larga espessura
a Vanadoro buscando
e o que dele vou achando
é como quer a ventura.
Monteiro: Senhor, cuido que lá vejo
uns lavradores cantar.
Lusidardo: I diante perguntar.
Monteiro: Comprido é seu desejo
se a vista não m’enganar.
Lusidardo: Como assi?
Monteiro: Ele não vê
aquele pastor loução
com ũa moça pola mão?
Se Vanadoro não é
nem eu o monteiro sam.
Pastor: Quién veo allá asomar
que se viene a nuestras bodas?
Bobo: No los dexemos llegar
que nos vernán a robar
juri a mí las migas todas.
Lusidardo: Oh Vanadoro meu filho
és tu este?
Vanadoro: Tal estou
que cuido que este não sou.
Lusidardo: Certo que me maravilho
de quem tanto te mudou.
Como estás assi mudado
no rosto e no vestido.
Vanadoro: Ando já noutro trocado
tanto que fiquei pasmado
de como fui conhecido.
E se vossa mercê vem
para me levar daqui
mais há de levar que a mi
e há de ser quem me tem
todo transformado em si.
Bobo: Eso por qué lo entendéis?
Por las migas, por ventura.
Voto a tal no llevaréis
por más y más que andéis
no me haréis tal travesura.
Vanadoro: Esta fermosa donzela
em mi teve tal poder
que folguei de me perder
pois enfim vim achar nela
o que não cuidei de ser.
Tanto em mi pôde este amor
que a tenho recebida
e se o erro grave for
aqui quero ser pastor
deixe-me ter esta vida.
Lusidardo: É certo tal casamento?
Vanadoro: Tenha-o por cousa segura.
Lusidardo: Oh grande acontecimento.
Dest’arte sabe a ventura
aguar um contentamento.
Pastor: Óyame señor a mí
como hombre sabio y discreto
porque acaesció así
y lo que supe hasta aquí
lo puede tener por cierto.
Muchos años son corridos
que en esta fuente abierta
en estos valles floridos
hallé dos niños nacidos
y a su madre casi muerta.
Los niños chicos crié
y desto cierto me arreo
y a la madre sepulté
y después un gran deseo
de saber esto tomé.
Como yo fuese enseñado
de chico a la mágica arte
por mi padre qu’es finado
muy conoscido y nombrado
soy por tal en toda parte.
Yo con hierbas de la sierra
animales y otras cosas
haré si el arte no se yerra
que desciendan a la tierra
las estrellas luminosas.
Soy en fin certificado
que la madre de los dos
fue princesa d’alto estado
y por un caso nombrado
la traxo a esta tierra Dios.
El macho como creció
deseoso de otro bien
a la corte se partió.
La hembra es esta por quien
vuestro hijo se perdió.
Y si más quiere señor
de mi arte prestamente
dello le haré sabedor
mas ha de ser de tenor
que no lo sepa la gente.
Lusidardo: Mas vamo-nos se quereis
que não sofro dilação
a minha casa e então
lá disso me informareis
que é caso de admiração.
E vós filho não cuideis
que a glória de vos achar
nam é tanto d’estimar
que em qualquer estado que esteis
não folgue de vos levar.
