Auto de Filodemo – Ato II

Vão-se, e vem Duriano e diz:

Pois não creo eu em sam Pisco do pau se hei de pôr pé em ramo verde té lhe dar trezentos açoutes. Depois de ter gastado perto de trezentos cruzados com ela, porque logo lhe nam mandei o cetim para as mangas fez de mi mangas ao demo. Nam desejo eu de saber senão qual é o galante que me socedeu, que se vo-lo eu colho a balravento eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tem cortado à minha custa. Ora tenho assentado que amor destas anda c’o dinheiro como a maré co a lua, bolsa chea amor em águas vivas, mas se vaza vereis espraiar este engano e deixar em seco quantos gostos andavam como pexe n’água.

Entra Filodemo e diz:

Oulá, cá sois vós. Pois agora ia eu bater essas moutas para ver se me saíeis de algũa, porque quem vos quiser achar é necessário que vos tire como ũa alma.

Duriano:
Oh maravilhosa pessoa. Vós é certo que vos prezais de mais certo em casa que pinheiro em porta de taverna. E trazeis, se vem à mão, os pensamentos c’os focinhos quebrados de caírem onde vós sabeis. Pois sabeis, senhor Filodemo, quais são os que me matam? Uns muito bem almofaçados que com dous ceitis fendem a anca pelo meio e se prezam de brandos na conversação e de falarem pouco e sempre consigo dizendo que não darão meia hora de triste pelo tesouro de Veneza. E gabam mais Gracilaso que Boscão e ambos lhe saem das mãos virgens, e tudo isto por vos meterem em conciência que se não achou para mais o grão-capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo foram altos espritos. E eu não trocarei duas pescoçadas da minha et cetra., depois de ter feito a trosquia a um frasco e falar-me por tu e fengir-se-me bêbada por que o não pareça, por quantos sonetos estão escritos polos troncos das árvores do Vale Luso nem por quantas madamas Lauras vós idolatrais...

Filodemo: Tá, tá não vades avante que vos perdeis.
Duriano: Aposto que adevinho o que quereis dizer.
Filodemo: Quê?

Duriano:
Que se me não acodíeis com batel que me ia meus passos contados a herege d’amor.

Filodemo: Oh que certeza tamanha o muito pecador não se conhecer por esse.

Duriano:
Mas oh que certeza maior de muito enganado esperar em sua openião. Mas tornando a nosso porpósito, que é o para que me buscais? Que se é cousa de vossa saúde tudo farei.

Filodemo:
Cómo templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tem, senhor Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo, não pode ser que a natureza não faça em vós o que a razão não pôde. O caso é este, dir-vo-lo-ei, porém é necessário que primeiro alimpeis como marmelo e que ajunteis para um canto de casa todos esses maus pensamentos, porque segundo andais mal avinhado danareis tudo aquilo que agora lançarem em vós. Já vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não é servir a senhora Dionisa e, posto que a desigualdade dos estados o não consinta, eu não pertendo dela mais que o não pertender dela nada, porque o que lhe quero consigo mesmo se paga, qu’este meu amor é como a ave fénis, que de si só nace e nam de outro nenhum interesse.

Duriano: Bem praticado está isso mas dias há que eu não creo em sonhos.

Filodemo: Porquê?

Duriano:
Eu vo-lo direi. Porque todos vós outros, os que amais pela passiva, dizeis que o amor fino como melão não há de querer mais de sua dama que amá-la, e virá logo o vosso Petrarca e o vosso Petro Bembo atoado a trezentos Platões, mais safado que as luvas dum pajem d’ arte, mostrando rezões verisímeis e aparentes para não quererdes mais de vossa dama que vê-la e ao mais até falar com ela. Pois inda achareis outros escodrinhadores d’amor mais especulativos que defenderão a justa por não emprenhar o desejo, e eu faço-vos voto solene, se a qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e aparelhada antre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sobre pedra. E eu já de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa e que ela há de ser a paciente e eu agente porque esta é a verdade. Mas contudo vá vossa mercê co a história por diante.

Filodemo:
Vou, porque vos confesso que nesse caso há muita dúvida antre os doutores. Assi que vos conto que estando esta noite com a viola na mão bem trinta ou quarenta léguas pelo sertão dentro de um pensamento, senão quando me tomou à treição Solina e, antre muitas palavras que tevemos, me descobriu que a senhora Dionisa se levantara da cama por me ouvir e que estevera pela greta da porta espreitando quasi hora e mea.

Duriano: Cobras e tostões sinal de terra. Pois ainda vos eu não fazia tanto avante.

Filodemo:
Finalmente veio-me a descobrir que me não queria mal, que foi para mi o maior bem do mundo, que eu estava já concertado com minha pena a sofrer por sua causa e não tenho agora sojeito para tamanho bem.

Duriano:
Grande parte da saúde é para o doente trabalhar por ser são. Se vos leixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado nunca chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme que eu vos faço bom que às duas enxadadas acheis água. E que mais passastes?

Filodemo:
A maior graça do mundo. Veio-me a descobrir que era perdida por vós e assi me quis dar a entender que faria por mim tudo o que lhe vós mereceis.

Duriano:
Santa Maria, quantos dias há que nos olhos lhe vejo marejar esse amor, porque o fechar de jenelas que essa molher me faz e otros enojos que dizer podría, no son sino corredores del amor e a cilada em que ela quer que eu caia.

Filodemo:
Nem eu não quero que lho queirais mas que lhe façais crer que lho quereis.

Duriano:
Nam, quant’a dessa maneira me ofereço a romper mea dúzia de serviços alinhavados às panderetas que bastem assentar-me em soldo pelo mais fiel amante que nunca calçou esporas. E se isto não bastar, salgan las palavras mais sangrentas del corazón entoadas de feição que digam que sou um Mancias e pior ainda.

Filodemo:
Ora dais-me a vida. Vamos ver se porventura aparece, porque Vanadoro, irmão da senhora Dionisa, é fora à caça e sem ele fica a casa despejada. E o senhor dom Lusidardo anda no pomar todo o dia, que todo seu passatempo é enxertar e despor e outros exercícios d’agricultura naturais a velhos. E pois o tempo nos vem à medida do desejo, vamo-nos lá e se lhe puderdes falar fazei de vós mil manjares por que lhe façais crer que sois mais esperdiçado d’amor que um Brás Quadrado.

Duriano:
Ora vamos que agora estou de vez e cuido d’hoje fazer mil maravilhas com que vosso feito venha à luz.

Vão-se e entra Dionisa e Solina, e diz Dionisa:

Solina, mana.
Solina: Senhora.
Dionisa: Trazei-me cá almofada
que a casa está despejada
e esta varanda cá fora
está milhor assombrada.
Trazei a vossa também
para estarmos cá lavrando
enquanto meu pai não vem
estaremos praticando
sem nos estrovar ninguém.

Solina: Este é o mesmo lugar
onde estava o bem logrado
tal que de muito enlevado
se esquecia do cantar
por se enlevar no cuidado.
Dionisa: Vós mana sois mui roim
logo lhe fostes contar
que me ergui polo escutar.
Solina: Eu o disse?
Dionisa: Eu não no ouvi?
Como mo quereis negar?

Solina: E pois isso que releva?
Que se perde nisso agora?
Dionisa: Que se perde? Assi senhora
folgareis vós que se atreva
a contá-lo lá por fora?
Que se lhe meta em cabeça
algũa párvoa tenção
que faça se vem à mão
algũa cousa que pareça?
Solina: Senhora, não tem razão.

Dionisa: Eu sei mui bem atentar
do que se há de ter receio
e do que é para estimar.
Solina: Não é o demo tam feio
como alguém o quer pintar
e não se espera isso dele
que não é ora tão moço.
E vossa mercê assele
que qualquer segredo nele
é como ũa pedra em poço.

Dionisa: E eu que segredo quero
com um criado de meu pai?
Solina: E vós mana fazeis fero.
Ao diante vos espero
se adiante o caso vai.
Dionisa: O madraço, quem no vir
falar de siso co ela...
Entam vós gentil donzela
folgais muito de o ouvir?
Solina: Si, porque me fala nela.

E eu como ouço falar
nela, como quem não sente
folgo de o escutar
só para lhe vir contar
o que dela diz a gente
que eu não quero nada dele.
E mais por que está falando?
Não m’esteve ela rogando
que fosse falar com ele?
Dionisa: Disse-vo-lo assi zombando.

Vós logo tomais em grosso
tudo quanto me escutais.
Parvo, que vê-lo não posso.
Solina: Ela ali e o cão c’o osso
inda isto há de vir a mais.
Pois que tal ódio lhe tem
falemos senhora em al
mas eu digo que ninguém
merece por querer bem
que a quem lho quer queira mal.

Dionisa: Deixai-o vós doudejar.
Se meu pai ou meu irmão
o vierem a aventar
não há ele de folgar.
Solina: Deos meterá nisso a mão.
Dionisa: Ora i polas almofadas
que quero um pouco lavrar
por ter em que me ocupar
que em cousas tão mal olhadas
não se há o tempo de gastar.

Vai Solina dizendo:

Que cousas somos molheres
como somos perigosas
e mais estas tam viçosas
que estão à boca que queres
e adoecem de mimosas.
Se eu nam caminho agora
a seu desejo e vontade
como faz esta senhora
fazem-se logo nessa hora
na volta da honestidade.

Quem a vira o outro dia
um poucochinho agastada
dar no chão co almofada
e enlevar a fantesia
toda noutra trasformada.
Outro dia lhe ouvirão
lançar sospiros a molhos
e com a imaginação
cair-lhe agulha da mão
e as lágrimas dos olhos.

Ouvir-lh’-eis à derradeira
a ventura maldizer
porque a foi fazer molher
então diz que quer ser freira
e não se sabe entender.
Entam gaba-o de descreto
de músico e bem desposto
de bom corpo e de bom rosto.
Quant’a entam eu vos pormeto
que não tem dele desgosto.

Depois, se vem atentar
diz que é muito mal feito
amar homem deste jeito
e que não pode alcançar
pôr seu desejo em efeito.
Logo se faz tam senhora
logo lhe ameaça a vida
logo se mostra nessa hora
muito segura de fora
e de dentro está sentida.

Bofé segundo vou vendo
se esta postema vier
como eu sospeito a crecer
muito há que dela entendo
ao fim que pode vir ter.

Vai-se Solina e entra Duriano e Filodemo, e diz Duriano:

Ora deixai-a ir que à vinda lhe falaremos. Entretanto cuidarei o como hei de fazer, que não há mor trabalho pera ũa pessoa que fengir-se.

Filodemo:
Dar-lh’-eis esta carta e fazei muito co ela que a dê à senhora Dionisa, que me vai nisso muito.

Duriano: Por molher de tam bom engenho a tendes?

Filodemo: E por que me perguntais isso?

Duriano:
Porque ainda ontem entrou pelo abc e já quereis que lea carta mandadeira. Fá-la-eis cedo escrever matéria junta.

Filodemo:
Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe falais. Mas fengi que de puro amor a andais buscando a tempos que façam a vossa tenção.

Duriano:
Deixai-me vós a mi com o caso que eu sei milhor as pancadas a estes vintes que vós, e eu vo-la farei hoje vir à noz sem gafas e vós entretanto acolhei-vos a sagrado porque ei-la lá vem.

Filodemo:
Olhai lá, fazei que a nam vedes e fengi que falais convosco que faz a nosso caso.

Duriano:
Dizeis bem. Yo sigo tristeza remedio de tristes, la terrible pena mía no la espero remediar. Pois nam devia assi de ser, polos santos evangelhos, mas muitos dias há que eu sei que o amor e os cangrejos andam às vessas. Ora enfim las tristezas no me espantan porque suelen afloxar cuánto más duelen.

Entra Solina e vai-se Filodemo e diz Solina co a almofada:

Aqui anda passeando
Duriano e só consigo
pensamentos praticando
daqui posso estar notando
com quem sonha, se é comigo.
Duriano: Ah quão longe estará agora
minha senhora Solina
de saber qu’estou bem fora
de ter outra por senhora
segundo amor determina.

Porém se determinasse
minha bem-aventurança
que de meu mal lhe pesasse
atá que nela tomasse
do que lhe quero vingança.
Solina: Comigo sonha por certo.
Ora quero-me mostrar
assi como por acerto
chegar-m’-ei mais ao perto
por ver se me quer falar.

Sempre esta casa há d’estar
acompanhada de gente
que não possa homem passar.
Duriano: À treição vindes tomar
quem já feridas não sente.
Solina: Logo me a mi parecia
que era ele o que passeava.
Duriano: E eu mal adevinhava
que me viesse este dia
que há tantos que desejava.

Se uns olhos por vos servir
com o amor que vos conquista
se atreveram a sobir
os muros de vossa vista
que culpa tem quem vos vir?
E se esta minha afeição
que vos sirve de giolhos
não fez erro na tenção
tomai vingança nos olhos
e deixai o coração.

Solina: Ora agora me vem riso
assi que vós sois senhor
de siso meu servidor?
Duriano: De siso não, porque o siso
me tem tirado o amor.
Porque o amor se atentais
num tam verdadeiro amante
não deixa siso bastante
senão se siso chamais
a doudice tão galante.

Solina: Como Deos está nos céus
que se é verdade o que temo
que fez isto Filodemo.
Duriano: Mas fê-lo o demo, que Deos
não faz mal tanto em extremo.
Solina: Bem, vós senhor Duriano
por que zombareis de mim?
Duriano: Eu zombo?
Solina: Eu não me engano.
Duriano: S’eu zombo inda em meu dano
vejais vós mui cedo a fim.

Mas vós senhora Solina
por que me querereis mal?
Solina: Sou mofina.
Duriano: Oh real
assim que minha mofina
é minha imiga mortal.
Dias há qu’eu imagino
que em vos amar e servir
não há amador mais fino
mas sinto que de mofino
me fino sem no sentir.

Solina: Bem derivais, quant’a assi
à popa o dito vos veio.
Duriano: Vir-me-á de vós porque creio
que vós falais dentro em mi
como esprito em corpo alheio.
E assi que em estas piós
a cair senhora vim
bem parecerá antre nós
pois vós andais dentro em mim
que ande eu também dentro em vós.

Solina: E bem, que falar é esse?
Duriano: Dentro na vossa alma, digo
lá andasse e lá morresse
e se isto mal vos parece
dai-me a morte por castigo.
Solina: Ah mau, como sois malvado.
Duriano: Mas vós como sois malvada
que de um pouco mais de nada
fazeis um homem armado
como quem está sempre armada.

Dizei-me Solina, mana...
Solina: Que é isso? Tirai lá a mão
e vós sois mau cortesão.
Duriano: O que vos quero m’engana
mas o que desejo não.
Aqui não há senão paredes
as quais nam falam nem vem.
Solina: Está isso muito bem.
Bem, e vós senhor nam vedes
que poderá vir alguém?

Duriano: Que vos custam dous abraços?
Solina: Não quero tantos despejos.
Duriano: Pois que farão meus desejos
que querem ter-vos nos braços
e dar-vos trezentos beijos?
Solina: Olhai que pouca vergonha
i-vos di boca de praga.
Duriano: Eu não sei certo a que ponha
mostrardes-me a triaga
e virdes-me a dar peçonha.

Solina: Ora ide rir à feira
e não sejais dessa laia.
Duriano: Se vedes minha canseira
por que lhe não dais maneira?
Solina: Que maneira?
Duriano: A da saia.
Solina: Por minha alma de vos dar
mea dúzia de porradas.
Duriano: Oh que gostosas pancadas.
Mui bem vos podeis vingar
que em mim são bem empregadas.

Solina: Ò diabo que o eu dou.
Como me doeu a mão.
Duriano: Mostrai cá, minha afeição
que essa dor me magoou
dentro no meu coração.
Solina: Ora i-vos embora asinha.
Duriano: Por amor de mim senhora
não fareis ũa cousinha?
Solina: Digo que vades embora.
Que cousa?
Duriano: Esta cartinha.

Solina: Que carta?
Duriano: De Filodemo
a Dionisa vossa ama.
Solina: Dizei que tome outra dama
e dê os amores ao demo.
Duriano: Não andemos pola rama.
Senhora aqui para nós
que sentis dela com ele?
Solina: Grandes alforges sois vós
pois i-lhe dizer que apele.
Duriano: Falai que aqui estamos sós.

Solina: Qualquer honesta se abala
como sabe que é querida.
Ela é por ele perdida
nunca noutra cousa fala.
Duriano: Ora vou-lhe dar a vida.
Solina: E eu não lhe disse já
quanta afeição lh’ela tem?
Duriano: Não se fia de ninguém
nem crê que para ele há
no mundo tamanho bem.

Solina: Dir-vos-ia de mi lá
o que lh’eu disse zombando?
Duriano: Não disse, por sam Fernando.
Solina: Ora ide-vos.
Duriano: Que me vá?
E mandais que torne quando?
Solina: Quando eu cá vir lugar
vo-lo mandarei dizer.
Duriano: Se o quiserdes buscar
não vos deve de faltar
se nam faltar o querer.

Solina: Não falta.
Duriano: Dai-me um abraço
em sinal do que quereis.
Solina: Tá, que o não levareis.
Duriano: De quantos serviços faço
nenhum pagar-me quereis.
Solina: Pagar-vos-ão algũ’ hora
que isso a mi também me toca
mas agora i-vos embora.
Duriano: Essas mãos beijo, senhora
enquanto não posso a boca.

Vai-se Duriano e fala Solina com Dionisa que lhe traz a almofada, e diz Solina:

Já vossa mercê dirá
que estive muito tardando.
Dionisa: Bem vos detevestes lá.
Bofé que estava cuidando
em nam sei quê.
Solina: Que será?
Aqui somos. Quant’a agora
está ela trasportada.
Dionisa: Que rosnais vós lá, senhora?
Solina: Digo que tardei lá fora
em buscar esta almofada.

Qu’estava ela agora só
consigo fantesiando?
Dionisa: Bofé qu’estava cuidando
que é muito para haver dó
da molher que vive amando.
Que um homem pode passar
a vida mais ocupado.
Com passear, com caçar
com correr, com cavalgar
forra parte do cuidado.

Mas a coitada
da molher sempre encerrada
que nam tem contentamento
nem tem desenfadamento
mais que agulha e almofada.
Então isto vem parir
os grandes erros da gente
em que já antigamente
foram mil vezes cair
princesas d’alta semente.

Lembra-me que ouvi contar
de tantas afeiçoadas
em baxo e pobre lugar
que as que agora vão errar
podem ficar desculpadas.
Solina: Senhora, a muita afeição
nas princesas d’alto estado
não é muita admiração
que no sangue delicado
faz o amor mais impressão.

Mas deixando isto à parte
se m’ela quiser peitar
pormeto de lhe mostrar
ũa cousa muito d’arte
que lá dentro fui achar.
Dionisa: Que cousa?
Solina: Cousa d’esprito.
Dionisa: Algum pano de lavores?
Solina: Inda ela não deu no fito.
Cartinha sem sobrescrito
que parece ser d’amores.

Dionisa: Essa é a boa ventura.
Solina: Bofé que mo pareceu.
Dionisa: E esta donde naceu?
Solina: No meu cesto da costura.
Não sei quem m’ali meteu.
Dionisa: Mostrai-ma, não hajais medo
mana, eu que vos descobri?
Solina: E s’ela vem para mi
logo quer ver meu sagredo.
Não na veja, vá-se di.

Ei-la aí.
Dionisa: Cuja será?
Solina: Não sei certo cuja é.
Dionisa: Si sabeis.
Solina: Não sei bofé.
Dionisa: Ora a carta mo dirá.
Solina: Pois leia vossa mercê.

Abre Dionisa a carta e lê-a.
Carta.

Se pera merecer minha pena me não falta mais que viver contente dela, já logo ma podeis consentir, pois que de nenhũa outra cousa vivo triste senão por não ser para tam doce tristeza. Se tendes por ofensa cometer tamanha ousadia, por maior a devíeis ter se a nam cometesse, que amor acostumado é fazer os extremos às medidas das afeições e as afeições às medidas da causa dele. Pois logo nem o meu amor pode ser pouco nem fazer menos. Se este bastar para consentirdes em meu pensamento baste para me dardes o que pelo ter mereço. E se não, muitas graças ao amor que me soube dar um cuidado que, com tê-lo, se paga o trabalho de sofrê-lo.

Solina: Quanta parvoíce diz.
Dionisa: Ora muito boa está.
Como vós, mana, sois má
não sejais vós tão biliz
que bem vos entendo já.
Cuja é?
Solina: E eu que sei?
Dionisa: Pois quem o sabe?
Solina: O demo.
Dionisa: Certo que é de quem temo
que os ditos que nela achei
são todos de Filodemo.

Este homem, que atervimento
é este que foi tomar?
Qual será seu fundamento
que mil vezes me faz dar
mil voltas ao pensamento?
Não entendo dele nada.
Mas inda qu’isto é assi
disso que dele entendi
me sinto tão alterada
que me arreceio de mim

eu inda agora não creo
que é verdade este amor
mas praza a Deos se assi for
que inda este meu receo
se não converta em temor.
Solina: Já vós jacedes
pexes nas redes.
Senhora, quem mais confia
mais asinha a cair vem.
Natural é do querer bem
que o amor n’alma se cria
sem no sentir quem no tem.

Filodemo no que ouvi
tem-lhe sobeja afeição
e posto que o crea assi
ou eu sonhei ou ouvi
que era d’alta geração.
Logo na filosomia
nas manhas, artes e jeito
mostra mui grande respeito.
Nem tam alta fantesia
nam se põe em baixo peito.

Dionisa: Tudo isso cuido e vi
mil vezes meudamente
mas essas mostras assim
são desculpas pera mim
e nam para toda a gente.
Solina: O seu moço vejo vir
a nós, seu passo contado.
Este é muito pera ouvir
que diz que me quer servir
d’amores esperdiçado.

Entra Vilardo e diz:

Senhora, o senhor seu pai
mesmo de vossa mercê
já lá para casa vai
por isso senhora andai
que ele me mandou num pé
e diz que fosse jantar
vossa mercê mesmamente.
Solina: E já veio do pomar?
Dionisa: Oh quem pudera escusar
de comer nem de ver gente.

Nenhũa cor de verdade
tenho do que m’ele manda.
Moço: S’ela sem vontade anda
eu lh’emprestarei vontade
empreste-m’ela a vianda.
Solina: Vá senhora por não dar
mais em que cuidar à gente.
Dionisa: Irei mas não por jantar
que quem vive descontente
mantém-se de imaginar.

Moço: Pois também cá minhas dores
me não dexam comer pão
nem come minha afeição
senão sopadas d’amores
e mil postas de paixão.
Das lágrimas caldo faço
do coração escudela
esses olhos são panela
que coze bofes e baço
com toda a mais cabadela.

Vão-se todos e entra o Monteiro em busca de Vanadoro, que se perdeu na caça, e diz:

Perdeu-se por esta brenha
Vanadoro meu senhor
sem que novas dele tenha
queira Deos que inda não venha
desta perda outra maior.
Contra esta parte daqui
dês por um cervo correu
logo desapareceu.
Como da vista o perdi
o gosto se me perdeu.

Eu e os mais caçadores
corremos montes e covas
falámos com lavradores
deste vale e com pastores
sem dele acharmos novas.
Quero ver nestes casais
que cobrem aquele arvoredo
se acharei pastores mais
que me dem alguns sinais
que me possam tornar ledo.

Chama polos pastores do casal e responde-lhe um Pastor.

Hou dos casais, hou de lá
ah pastores não falais?
Pastor: Quién sois o lo qué buscáis?
Monteiro: Ouvis? Chegai para cá.
Pastor: Decid vos lo que mandáis.

Fala o Bobo, seu filho do pastor:

No vayáis adó os llamó
padre, sin saber quien es.
Pastor: Por qué?
Bobo: Porque este es
aquel ladrón que hurtó
el asno del portugués.

Y se vais adó están
os jure al cuerpo sagrado
de san Pisco y san Juan
que también os hurtarán
que sois asno más honrado.
Pastor: Déxame ir que me llamó.
Bobo: No, por vida de mi madre
que si allá vais, muerto so
y desta vez quedo yo
sin asno, triste y sin padre.

Monteiro: Vinde que vo-lo encomendo
e em vossas mãos me ponho.
Bobo: No vais, que dixo en comiendo.
Y encomiéndoos al demonio
y eso es lo que andáis haciendo.
Pastor: Déxame ir adó está
que no es cosa que me espante.
Bobo: No queréis sino ir allá.
Pues échale pan delante
puede ser que amansará.

Pastor: Dios os guarde. Qué cosa es
esa por que voceáis?
Monteiro: Dar-m’-eis novas ou sinais
dum fidalgo português
se passou por onde andais?
Bobo: Yo so hidalgo portogués
qué manda su señoría?
Pastor: Cállate. Oh qué necio es.
Bobo: Padre, no me dexarés
ser lo que quisiere un día?

Ah santo Dios verdadero
no seré lo que otros son?
Digo agora que no quiero
ser Alonsico el vaquero.
Pastor: Cállate ya bobarrón.
Bobo: Ya me callo ahora un poco.
Ha de ser lo que yo quisiere.
Pastor: Señor, diga lo que quiere
porqu’este mochacho es loco
y muero porque no muere.

Monteiro: Digo que se por ventura
sabeis o que ando buscando
um fidalgo que caçando
se perdeu nesta espessura
após um cervo andando.
Tenho esta parte corrida
sem dele poder saber
trago a alegria perdida
e se de todo a perder
perca-se também a vida.

Porque só pelo buscar
tenho trabalhos assaz.
Bobo: Yo no puedo callar más.
Pastor: Cómo no puedes callar
quítate allá para tras.
Cuanto por aquesta tierra
no siento nueva ninguna.
Monteiro: Oh trabalhosa fortuna.
Pastor: Mas detrás daquesta sierra
hallaréis, por dicha, alguna.

Que unas chozas de vaqueros
portugueses allí están
y ahí muchas veces van
cazadores caballeros
puede ser que lo sabrán.
Monteiro: Quero-me ir lá saber
Ficai-vos a Deos, pastor.
Pastor: Dios os libre de dolor.
Bobo: Y a nos dé siempre comer
pan y sopas qu’es mejor.

Mirá lo que os notefico
en aquel valle acullá
anda paciendo un borrico
hidalgo manso y bonico
puede ser que ese será.
Pastor: Calla y acaba de andar.
Bobo: Ya ando.
Pastor: Quieres callar?
Bobo que tan poco sabe.
Bobo: No dicéis que ande y acabe?
Ando y no quiero acabar.