Aquele moço fero
Aquele moço fero
Nas peletrónias covas doutrinado
Do Centauro severo,
Cujo peito esforçado
Com tutanos de tigres foi criado;
N'água fatal, minino,
O lava a mãe, pressaga do futuro,
Pera que ferro fino
Não passe o peito duro
Que de si mesmo a si se tem por muro.
A carne lhe endurece,
Porque não seja de armas ofendida.
Cega! pois não conhece
Que pode haver ferida
N'alma, e que menos dói perder a vida.
Que, donde o braço irado
Dos Troianos passava arnês e escudo,
Ali se viu passado
Daquele ferro agudo
Do Minino que em todos pode tudo.
Ali se viu cativo
Da cativa gentil que serve e adora;
Ali se viu que, vivo
Em vivo fogo mora,
Porque de seu senhor se vê senhora.
Já toma a branda lira
Na mão que a dura Pélias meneara;
Ali canta e suspira,
Não como lhe ensinara
O Velho, mas o Moço que o cegara.
Pois, logo, quem culpado
Será se, de pequeno, oferecido
Foi todo a seu cuidado;
No berço instituído
A não poder deixar de ser ferido?
Quem, logo, fraco infante,
De outro mais poderoso foi sujeito,
E pera cego amante
Desde o princípio feito,
Com lágrimas banhando o tenro peito?
Se agora foi ferido
Da penetrante seta e forca de erva,
E se Amor é servido
Que sirva à linda serva,
Fera quem minha estrela me reserva?
O gesto bem talhado,
O airoso meneio e a postura,
O rostro delicado,
Que na vista figura,
Que se ensina por arte a fermosura,
Como pode deixar
De render a quem tenha entendimento?
Que quem não penetrar
Um doce gesto, atento,
Não lhe é nenhum louvor viver isento.
Aqueles, cujos peitos
Ornou de altas ciências o Destino,
Se viram mais sujeitos
Ao cego e vão Minino,
Arrebatados do furor divino.
O Rei famoso hebreio,
Que mais que todos soube, mais amou;
Tanto, que a deus alheio
Falso sacrificou:
Se muito soube e teve, muito errou.
E o grão Sábio que ensina,
Passeando, os segredos da Sofia,
À baixa concubina
Do vil eunuco Hermia
Aras ergueu, que aos deuses só devia.
Aras ergue a quem ama
O Filósofo insigne namorado.
Dói-se a perpétua fama
E grita que é culpado
De lesa-divindade é acusado.
Já foge donde habita;
Já paga a culpa enorme com desterro.
Mas! oh! grande desdita!
Bem mostra tamanho erro
Que doutos corações não são de ferro.
Antes na altiva mente,
No sotil sangue e engenho mais perfeito,
Há mais conveniente
E conforme sujeito
Onde se imprima o brando e doce afeito.
