A quem darão de Pindo as moradoras
A D. Manuel de Portugal
A quem darão de Pindo as moradoras,
Tão doutas como belas,
Florecentes capelas
De triunfante louro, ou mirto verde,
Da gloriosa palma, que não perde
A presunção sublime,
Nem por força de peso algum se oprime?
A quem trarão nas faldas [delicadas]
Rosas a roxa Clóris,
Conchas a branca Dóris;
Estas, flores do mar; da terra aquelas,
Argênteas, ruivas, brancas e amarelas,
Com dancas e coreias
De fermosas Nereidas e Napeias?
A quem farão os hinos, odes, cantos,
Em Tebas Anfião,
Em Lesbos Arião,
Senão a vós, por quem restituída
Se vê da Poesia já perdida
A honra e glória igual,
Senhor Dom Manuel de Portugal?
Imitando os espritos já passados,
Gentis, altos, reais,
Honra benina dais
A meu tão baixo quão zeloso engenho.
Por Mecenas, a vós celebro e tenho;
E sacro o nome vosso
Farei, se algũa cousa em verso posso.
O rudo canto meu, que ressuscita
As honras sepultadas,
As palmas já passadas,
Dos belicosos nossos Lusitanos,
Pera tesouro dos futuros anos,
Convosco se defende
Da lei leteia, à qual tudo se rende.
Na vossa árvore ornada de honra e glória,
Achou tronco excelente
A hera florecente
Pera a minha até'qui de baixa estima;
Nele, pera trepar, se encosta e arrima;
E nela subireis
Tão alto, quanto os ramos estendeis.
Sempre foram engenhos peregrinos
Da Fortuna envejados;
Que, quanto levantados
Por um braço nas asas são da Fama,
Tanto por outro aquela, que os desama,
Co peso e gravidade
Os oprime da vil necessidade.
Mas altos corações, dinos de Império,
Que vencem a Fortuna,
Foram sempre coluna
Da ciência gentil: Octaviano,
Cipião, Alexandre e Graciano,
Que vemos imortais;
E vós, que o nosso século dourais.
Pois, logo, enquanto a cítara sonora
Se estimar por o Mundo,
Com som douto e jucundo;
E, enquanto produzir o Tejo e o Douro
Peitos de Marte e Febo crespo e louro,
Tereis glória imortal,
Senhor Dom Manuel de Portugal.
