Aquele único exemplo

A D. Francisco Coutinho sobre o livro que
compõe o Dr. Orta, “De Simplicibus”

Aquele único exemplo
De fortaleza heróica e ousadia,
Que mereceu, no templo
Da Fama eterna ter perpétuo dia;
O grão filho de Tétis, que dez anos
Flagelo foi dos míseros Troianos;

Não menos ensinado
Foi nas ervas e médica polícia,
Que destro e costumado
No soberbo exercício da milícia:
Assi que as mãos que a tantos morte deram,
Também a muitos vida dar puderam.

E não se desprezou,
Aquele fero e indómito mancebo,
Das artes que ensinou
Pera o lânguido corpo o intenso Febo;
Que, se o temido Heitor matar podia,
Também chagas mortais curar sabia.

Tais artes aprendeu
Do semiviro mestre e douto velho,
Onde tanto creceu
Em virtude e em ciência e em conselho,
Que Télefo, por ele vulnerado,
Só dele pôde ser depois curado.

Pois vós, ó excelente
E ilustríssimo Conde, do Céu dado
Pera fazer presente
De altos heróis o século passado;
E em quem bem trasladada está a memória
De vossos ascendentes, a honra e glória;

Posto que o pensamento
Ocupado tenhais na guerra infesta,
Ou co sanguinolento
Taprobano, ou Achém, que o mar molesta,
Ou co Cambaio, oculto imigo nosso,
Que qualquer deles teme o nome vosso:

Favorecei a antiga
Ciência que já Aquiles estimou;
Olhai que vos obriga
O ver que, em vosso tempo, rebentou
O fruito daquel’Orta onde florecem
Plantas novas, que os doutos não conhecem.

Olhai que, em vossos anos,
Ũa Orta produze várias ervas
Nos campos indianos,
As quais aquelas doutas e protervas
Medeia e Circe nunca conheceram,
Posto que a lei da Mágica excederam.

E vede carregado
De anos, e traz a vária experiência
Um velho que, ensinado
Das gangéticas Musas na ciência
Polidária sotil, e arte silvestre,
Vence ao velho Quíron, de Aquiles mestre;

O qual está pedindo
Vosso favor e amparo ao grão volume,
Que, impresso à luz saindo,
Dará da Medicina um vivo lume,
E descobrir-nos-á segredos certos,
A todos os Antigos encobertos.

Assi que não podeis
Negar, a que vos pede, benina aura:
Que, se muito valeis
Na sanguinosa guerra turca e maura,
Ajudai quem ajuda contra a morte,
E sereis semelhante ao Grego forte.

Única ode e um dos três poemas publicados oficialmente em vida.