Vão as serenas águas

IV

Vão as serenas águas
Do Mondego decendo,
E mansamente até o mar não param;
Por onde as minhas mágoas,
Pouco a pouco crecendo,
Pera nunca acabar se começaram.
Ali se me mostraram
Neste lugar ameno
Em que inda agora mouro,
Testa de neve e de ouro,
Riso brando e suave, olhar sereno,
Um gesto delicado,
Que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente pera mim vivia;
Em paz com minha guerra,
Glorioso coa pena
Que de tão belos olhos procedia.
Dum dia em outro dia
O esperar me enganava:
Tempo longo passei,
Com a vida folguei,
Só porque em bem tamanho se empregava.
Mas que me presta já,
Que tão fermosos olhos não os há?

Oh! quem me ali dissera
Que de amor tão profundo
O fim pudesse ver eu algũa hora!
E quem cuidar pudera
Que houvesse aí no mundo
Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
Pera que desde agora,
Já perdida a esperança,
Visse o vão pensamento
Desfeito em um momento,
Sem me poder ficar mais que a lembrança,
Que sempre estará firme,
Até no derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
Que daqui levar posso,
E com que defender-me triste espero,
É que nunca sentia,
No tempo que fui vosso,
Quererdes-me vós quanto vos eu quero;
Porque o tormento fero
De vosso apartamento
Não vos dará tal pena
Como a que me condena,
Que mais sentirei vosso sentimento
Que o que minh'alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Tu, Canção, estarás
Agora acompanhando
Por estes campos estas claras águas;
E por mim ficarás
Com choro suspirando,
Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas,
Como ũa larga história,
Minhas lágrimas fiquem por memória.