Ó pomar venturoso

XII

Ó pomar venturoso,
Onde coa Natureza
A sotil arte tem demanda incerta;
Que em sítio tão fermoso
A maior sotileza
De engenho em ti nos mostras descoberta!
Nenhum juízo acerta,
De cego e de enlevado,
Se tem em ti mais parte
A Natureza, ou Arte;
Se Terra ou Céu de ti tem mais cuidado,
Pois em feliz terreno
Gozas dum ar mais puro e mais sereno.

De teu fermoso peso
Se mostra o monte ledo,
E o caudaloso Zêzere te estranha,
Porque olhas com desprezo
Seu cristal puro e quedo,
Que com Péra os teus pés rodeia e banha.
Em ti pintura estranha,
A que Apeles cedera,
Enigmas intrincados,
E mirtos animados
Vemos, que o próprio Escopas não fizera;
Em ti, coa paz interna,
Tem o santo prazer morada eterna.

Os jardins da famosa
Babei tão nomeados,
Por maravilha o mundo não levante,
Inda que com gloriosa
Voz, que estão pendurados
Do instável ar, a fama antiga cante:
Nem haja quem se espante
Dos famosos de Alcino;
Nem as mais doutas penas
Cantem os de Mecenas,
Cultor de todo o engenho peregrino;
Mas onde quer que voe,
De ti só fale a Fama e te pregoe.

Que se era antigamente
De pomos de ouro belos
O jardim das Hespéridas ornado;
E, apesar da serpente
Que os guardou, só colhê-los,
Pôde o famoso Alcides, de esforçado;
Tu, mais avantajado,
Mostras a ũa alma casta
Seguir o que deseja,
Fugir da torpe enveja
(Pomos de ouro que o tempo não contrasta):
Enfim, coa caridade
Vencer o Inferno, abrir a eternidade.

Portanto da ventura,
Pera ti reservada,
Te deixe o Céu gozar perpetuamente,
Porque sejas figura
Da glória avantajada
Dele mesmo, e que em ti se represente;
Porque enquanto sustente
O Céu, o Mar e a Terra,
Seus feitos milagrosos,
Mistérios mais gloriosos,
Com que a morte das almas nos desterra,
Por onde em nossas almas
Com mais pompas triunfa e com mais palmas,

Goza, pois, longamente
Teu venturoso Fado,
Da mãe do teu autor bem possuído:
Que em ti, sempre contente
De seu sublime estado,
A alma dos seus alegra e o sentido.
Cada qual preferido
Nas grandes qualidades
Ao sábio Nestor seja,
Pera que o mundo os veja
Exceder as longuíssimas idades;
E com a longa vida
Seja sua memória enobrecida.
Canção, pois mais famosas
Por ti não podem ser
Deste monte as estâncias deleitosas;
Bem pode suceder
Que aquele que os teus números governa,
Por querê-las cantar te faça eterna.