Sempre, cruel Senhora, receei
Sempre, cruel Senhora, receei,
Medindo vossa grã desconfiança,
Que desse em desamor vossa tardança,
E que me perdesse eu, pois vos amei.
Perca-se, enfim, já tudo o que esperei,
Pois noutro amor já tendes esperança.
Tão patente será vossa mudança,
Quanto eu encobri sempre o que vos dei.
Dei-vos a alma, a vida e o sentido;
De tudo o que em mim há vos fiz senhora.
Prometeis e negais o mesmo Amor.
Agora tal estou que, de perdido,
Não sei por onde vou, mas algũa hora
Vos dará tal lembrança grande dor.
