Se obrigações de fama podem tanto
Ao Doutor Mestre Belchior, em louvor de sua filha D. Maria Figueiroa, na Índia em Damão.
Se obrigações de fama podem tanto,
Que inda de Helena vive hoje a memória,
Fazendo cada vez maior espanto;
Se também de Lucrécia a lívia história,
Inda que já passada, cá florece,
E por fama, e triunfo hoje tem glória;
Se a perfeição de Laura nunca esquece,
Também é que por fama laureada,
Nos ficou por Petrarca, e hoje cresce;
E se aquela cruel troiana espada,
Deu com a morte vida à formosura
De Dido por Virgílio celebrada;
E se Vênus formosa, hoje segura
Se apresenta em mil versos, e Diana
Coas nove Irmãs de Apolo tem ventura,
Que fará a formosura soberana
De Figueiroa ilustre, de quem quero
Cantar com doce Lira, e mantuana?
Mas se me ela não falta, dela espero
Cantar, não destas já, que já acabaram;
Destas cante Virgílio, cante Homero:
Que se outras com seus versos celebraram,
Foi que, por sua idade, a desta dama
(Por inda estar no Céu) não na alcançaram
Mas tinha-lhe a ventura oriental cama,
Guardada lá em Damão, porque nascendo,
Perder fizesse às outras glória e fama.
E enquanto alegre declarar pretendo,
Vós, pai de tal tesouro, dai-me ouvidos,
Pera dele dizer, mais do que entendo.
Não reproveis meus versos de atrevidos,
Antes dai-lhe louvor, pera que sejam
De tal dama, e de vós favorecidos:
Que milagres de amor, farei que vejam!
Direi os olhos belos, boca e riso,
Mil partes, que outras damas ter desejam.
Cabelos de ouro, enfim, seu grande aviso,
Sua arte, perfeição, cheia e formosura,
Que na terra nos mostra um paraíso?
Que mais? o grave aspeito, e a brandura,
A boca de rubis, cheia de perlas,
Das cristalinas mãos a neve pura?
Senhora Dona Maria, antre as mais belas,
Vós sois, quem nossa idade hoje enriquece,
E antre elas sois qual sol antre as estrelas.
Por vós Damão, Senhora, hoje florece,
Por vós as Musas já do sacro monte,
Donde contino o louro verde cresce,
Vos vêm apresentar, da clara fonte,
De pálidas violas coroadas,
As pegaseias flores de Eliconte.
A vós se vêm cantando rodeadas
Das Ninfas, que o dourado Tejo cria,
Com suas doces Liras temperadas.
E com seu suave canto, e melodia,
Chegadas a vós já dizem cantando,
Esta é por quem Apolo emudecia.
Esta é por quem Vertumno desprezando
Pomona, de contínuo se abrasava,
Na menos parte sua imaginando.
Esta é por quem em fonte se tornava
O avô de Faetonte, e porque Orfeu
As fúrias infernais aquebrantava;
Esta é por quem só Tróia se perdeu,
Esta é a quem Páris deu a maça de ouro,
E esta por quem Orlando endoudeceu.
Esta é quem desde o Ganges até o Douro,
Só sem falta compôs a natureza,
Do índico oriental todo o tesouro;
Esta é quem trouxe à luz toda a nobreza
Dos de Lião Fajardos, que descende
Do real tronco ingrês, na mor alteza.
Esta é a Flor do Lago, que se estende,
E em quem do novo nasce a real planta,
Esta é a quem o mesmo Amor se rende.
Esta é por quem a Aurora se levanta,
Na parte oriental, mais clara e pura,
Esta é por quem morrendo o cisne canta.
Esta é por quem nos dotou só a ventura,
De mil primores cheia, colocada
Em rara perfeição de fermosura.
Esta será de nós sempre cantada,
E dos novos poetas mil louvores
Terá com fama eterna e sublimada.
Na festa de deus Pã cem mil pastores
Desta felice terra a ti cantando,
Mil ramos levarão cheios de flores.
A ti as suas lutas dedicando,
Seus jogos pastoris de cem mil partes,
Com versos te estarão sempre louvando.
E tu, que de teu ser nunca te partes
Com formosura e graça de contínuo,
Com que por fama ao mundo te repartes,
Com rosto branco, alegre e peregrino
Aceitarás seus versos, coroada
De rosas e de louro a ti só dino.
Dali do nosso coro venerada
Terás cargo da selva de Diana,
E antre nós tu serás mais estimada.
Dali, ó alta deia e soberana,
Governarás o índico Oriente,
E todo Estado além da Taprobana.
Dali correndo irá de gente em gente
Tua fama, fazendo esquecida
A das antigas damas do Ocidente,
Ganhando teu louvor imortal vida.
