Saiam desta alma triste e magoada
À morte de D. Telo, que mataram na Índia. Encontrou-se num manuscrito do Arcebispo D. Rodrigo da Cunha, feito no ano de 1568.
Saiam desta alma triste e magoada
Palavras magoadas de tristeza,
E seja ao mundo a causa declarada.
Saia do peito a voz, com que a graveza
Sojiga, doma, e as gentes move tanto,
Por mais e mais que tenham de dureza.
E vós meus olhos tristes entretanto
Em lágrimas esta alma derretida
Chorai, que amargo choro é o meu canto.
Quanto de mim a causa foi sentida,
Seja de vós chorada, e juntamente
Choremos ũa morte e ũa vida.
A bondade choremos inocente,
Cortada em flor, que pela acerba morte
Nos foi arrebatada de antre a gente.
E aquela imensa dor, e dura sorte
Da magoada mãe, cuja alma triste
Também cortada foi com agudo corte.
Ó espírito gentil, que ao Céu subiste,
Porque enjeitaste a minha companhia,
E acompanhar-te eu não consentiste?
Este é o canto heróico, e de alegria,
Que eu já em teu louvor aparelhava,
Como o tornou a morte em Elegia?
Esta é a esperança que nos dava
De ti, tua tenra e alegre mocidade,
De quem tão grandes cousas se esperava?
O himeneu, que em mais perfeita idade
Com honras mil te andava aparelhando
A mãe, de quem não houveste piadade:
Que agora, como Hécuba, anda bramando,
Buscando em vão a casa em toda a parte:
Amado filho meu, por ti brandando?
Quem me vedou os olhos teus cerrar-te,
Que em tão amarga e triste despedida
Pudera esta alma minha acompanhar-te?
Quem te privou da cara e doce vida,
Meu filho tão formoso e malogrado,
Dous corações passou ũa só f´rida.
Em terra de desterro, ai filho amado,
Deixando-me sem ti desamparada,
Quiseste ser de estranhos sepultado.
Se ias pera fazer tão grão jornada,
Não levaras em tua companhia
Esta mísera mãe desconsolada?
Quíçá que algum socorro te seria,
Que vendo vir a espada em alto erguida,
Filho, cum grito meu te avisaria.
Ou recebera o golpe nesta vida,
Metendo-me no meio, e tu viveras,
Fartara de meu sangue esse homicida.
Ai filho, meu amor, que tu só eras
Quem com tua vida alegre algum descanso
A meu viver cansado dar puderas.
E tu serás também quem manso a manso
Me acabarás a vida, que eu queria
Sem ti ver acabada de um só lanço.
E vós também, mulheres, que paristes,
Ajudai-me a chorar, por que em mal tanto
Não satisfazem só meus olhos tristes.
Assi com grave dor de canto a canto
Até nos corações de mor dureza
Soa ũa voz confusa, um amargo pranto.
Ó tu, honra e primor da Natureza,
Ilustre e fermosíssima Maria,
Não trates mal, Senhora, tal beleza.
Pois só custódia és, donde alegria
Defunta, e tal chorada em dia amargo
Ressurgirá em outro alegre dia.
Que a ti deu o movedor do mundo o cargo
De alegrares a mãe chorosa e triste,
Que alegre viverá por tempo largo.
Posto que a dor do irmão muito sentiste
Não destruas as lindas tranças belas,
Pois o remédio nisso não consiste.
Não trates mal as nítidas estrelas
Dos olhos teus com lágrimas ardentes,
Pois têm mais resplendor que todas elas.
Não ofendas as faces refulgentes,
Obra de Deus, com mão despiedosa,
Da pátria honra, se louvor das gentes.
Mas vai com doce voz, branda e amorosa
Consola a triste mãe desconsolada
Com tua vista alegre, e tão fermosa.
Promete-lhe que em ti ressuscitada
Verá sua alegria já perdida,
De todos tão sentida, e tão chorada.
Pois teu remédio está só em sua vida,
Que haja de ti materna piedade,
Não dê tanto lugar a dor crescida.
Bem se permite à fraca humanidade
Por filho tal, e tanto tempo ausente,
Um moderado pranto, ũa saudade.
Mas tão contínua dor, que espante a gente,
E põe em tal extremo a vida amada,
Nem o mundo o quer, nem Deus o consente.
Não foi a morte de Heitor sempre chorada
Da triste mãe, que além de filho amado,
Era por ele só Tróia amparada.
Mas já depois de morto, e arrastado
Com grego aplauso, vozes e alarido,
O corpo houve às mãos desconjuntado.
Perdida a cor, o colo recaído,
Não parecia Heitor, que dantes era,
De pó, de sangue e de suor tingido.
Com seus olhos lavou-lhe a chaga fera,
Com suas mãos o rosto lhe alimpava
Sem alma e sangue, já de cor de cera.
Mas vendo enfim quão pouco aproveitava
Seu choro, e nem por mais que em vão bradando
Chamava Heitor, Heitor ressuscitava.
De lágrimas os olhos enxugando,
Desenganada já do filho amado
Se foi coa amada filha consolando.
Nem sempre o fero Aquiles foi chorado
De Tétis sua mãe, do branco coro,
Príncipe grego tão assinalado.
Também pagou à morte o antigo foro,
E à deusa não valeu ser prevenida,
Nem suspiros valeram, nem seu choro.
Também a este acabou mortal ferida,
Sendo meio imortal, e filho amado
De Deusa de Nereu tão querida.
Nas águas de Aqueronte foi banhado,
Porque em batalhas, como o fero Marte,
Do ferro não pudesse ser cortado.
Mas a água não chegou àquela parte,
Que esquadrinhou a seta aguda e forte,
Que contra ela não val´engenho e arte.
Choraram [as] gregas gentes sua morte,
Os Focas e Delfins também choraram,
Chorou do grande Nereu toda a corte.
Tantas lágrimas tristes derramaram,
Tanto chorou a mãe, que muito o amava,
Que o Xanto e o Simois acrescentaram.
Mas vendo que o chorar não aproveitava,
E que era dor perdida, e desatino,
Os seus fermosos olhos alimpava.
E com alegre rosto de ar benigno
O Céu, a Terra, o Mar, tudo alegrando,
E os cidadãos do reino cristalino.
Os seus verdes cabelos espalhando
Ao vento, de mil Ninfas rodeada,
Tornando a vista atrás de quando em quando:
De Pausilipo, Oritia acompanhada
De Dóris, Melanipe, e de Melanto,
Se foi pera Nereu consolada.
Deixai pois já, Senhora, o amargo pranto,
A pena, a dor, o mal que tanto cresce,
E dai lugar ao meu inculto canto.
Com grão dificuldade se oferece
A grandes desventuras; tais como esta:
A dar-lhe iguais palavras, quais merece.
Por tanto eu, Senhora, agora nesta
Não as hei-de buscar por consolar-te,
Que aos tristes consolar só a razão presta.
Também serão perdidas nesta parte
Consolações que em choro de amargura
Força não têm, por mais que tenham de arte.
Se as lágrimas não vence a razão pura,
Fortuna sempre a outras acrescenta,
Guarde-te Deus de mor desaventura.
Não digo, que a alma esteja de mágoa isenta,
Porque humano é sentir, mas é fraqueza,
Não sofrer o que Deus nos apresenta.
Não é este mundo a nossa Natureza,
Estrada sim, por onde caminhamos,
Pretendendo chegar à Suma Alteza.
Neste caminho um passo estreito achamos
Morte se chama horrenda, e desabrida,
Dívida, que Adão fez, e nós pagamos.
A todos é comum esta partida,
Quem morre, não morreu, partiu primeiro,
E o que há depois da morte é eterna vida.
Todo animal que nasce está foreiro
A passar este passo estreito tanto,
Todos lá havemos de ir por derradeiro.
Deixa, Senhora, deixa o amargo pranto,
Teu filho está no Céu resplandecente,
Já entre os cidadãos de coro santo,
Nossas memórias tristes não as sente,
Já livre, e de teatro está olhando
Com olhos imortais a imortal gente.
Da visão beatífica gozando,
Sem medo, ou sobressalto de perdê-la
O mundo e seus afagos desprezando.
Dali contempla de ũa e de outra estrela,
Ou fixa e errante, o curso e movimento,
Tendo, sem se mover, os pés sobre ela.
Veloz, qual o ligeiro pensamento,
Passa de pólo a pólo, e o Céu conhece
Que seu caminho faz com passo lento.
E porque o mar contínuo mingua e cresce,
Compreende, e a quinta-essência pura e neta,
E com que luz a Lua resplandece.
Nem nos espanta no ar qualquer cometa,
Os pontos sabe de um e de outro sino,
Por onde faz seu curso o grão planeta.
Um anjo novo tens, santo e benigno,
Vive, Senhora, alegre e consolada,
Que por ti roga ao Padre de contínuo.
Ó alma pura em alto alevantada,
Que lá estás nesse céu luzento e claro,
Desta mortal prisão já desatada.
Ó Senhor meu Dom Telo, amigo caro
Que do terreno sol, onde viveste
Te arrebatou sem tempo o tempo avaro.
Se ao passar de Lete não perdeste
A memória de mim, que tanto te amo,
E por íntimo amigo que tiveste,
Com atenção escuta o meu reclamo,
Não desprezes de ouvir lá dessa altura
A baixa e rouca voz, com que te chamo.
Que quando concedido da ventura
Me for o que eu por ti agora peço,
Não borrará o teu nome a fama escura.
Em tanto as baixas Rimas te ofereço
Em penhor da vontade e amor profundo,
Até cumprir o que ora aqui professo.
Que então te cantará por todo o mundo,
Com línguas mil a fama soberana,
E ocupará teu nome sem segundo
Do pátrio Tejo além da Taprobana.
