Que é isto? Sonho? Ou vejo a Ninfa pura

XIV

Que é isto? Sonho? Ou vejo a Ninfa pura,
Que sempre n'alma vejo?
Ou me pinta o desejo
O bem que em vão cad'hora me assegura?
Mal pode a noite escura,
Amando a sombra fria,
Mandar-me em sonho a luz fermosa e bela,
Que se não torne em dia,
De seus luzentos raios inflamada.
Oh! vista desejada
De graciosa Ninfa e viva estrela!
Que há tanto que por este mar navego
(Sem ver meu claro Pólo) escuro e cego.

Nesses fermosos olhos, de enlevada,
Minh'alma se escondeu,
Quando ordenava o Céu
Que vivesse comigo desterrada.
Vós a mais certa estrada
De ver a suma alteza,
Do efeito a causa abris a est'alma minha.
Assi mortal beleza
Só dela nasce e nela se resume;
Assi celeste lume
Lá dos Céus se deriva, e lá caminha.
Pois, como a Deus unir-me a vista possa,
Porque a negais, meu Sol, a est'alma vossa?

Se me quereis prender a parte a parte,
Cabelo ondado e louro,
Tecei-me a rede de ouro,
Em que prendeu Vulcano a Cípria e Marte.
Dês que com gentil arte
Vestis de flores belas
A terra em que tocais coa bela planta,
Quantas vezes com vê-las
Quis nũa dessas flores transformar-me?
Porque, vendo pisar-me
Desse cândido pé que a neve espanta,
Pode ser que na flor mudado fora
Que deu a Juno irada a linda Flora.

Mas onde te acolheste (ó doce vida!)
Mais leve e pressurosa,
Do que na selva umbrosa
Cerva de aguda seta vai ferida?
Se pera tal partida,
Meus olhos, vos abristes,
Cerrara-vos o sono eternamente,
Antes que ver-vos tristes,
Perdendo tão suave e doce engano!
Agora, com meu dano,
Vedes, pera mor mágoa, claramente,
Neste bem fugitivo e sono leve,
Que mal não há mais longo, que um bem breve.

Ditoso Endimião que a deusa cara,
Que a noute vai guiando,
Teve em braços sonhando!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara!
Tu só, Aurora avara,
Quando os olhos feriste,
Me mataste cruel de enveja pura.
Mas, se desta alma triste
A negra escuridão vencer quiseste,
Sabe que em vão naceste;
Que, para desfazer-se a névoa escura
De meus olhos, importa estar presente
Outro Sol, outra Aurora, outro Oriente.
Se a luz de meu planeta,
Não me aviva, Cancão branda e quieta,
Qual flor de chuva em breve consumida,
Verás desfeita em lágrimas a vida.