Porque a vossa beleza a si se vença

XIX

Porque a vossa beleza a si se vença,
Tais extremos mostrastes,
Que mais bela ficastes
Co passado rigor desta doença;
Assi depois, a descorada rosa
Se reverdece fica mais fermosa;
Assi depois do Inverno e seus rigores,
Se mostra a Primavera com mais flores;
Assi depois que eclipse o Sol padece,
Com mais fermosos raios resplandece.

Já de vossa saúde o Sol se alegra,
E se negro vestia
Se veste de alegria,
E se mostra mais clara a noute negra,
Os campos secos floreceis, Senhora,
Sem flores já enferma a sua Flora;
Também os elementos se alegraram,
Que o vosso mal sentiram e choraram;
Alegre canta o pássaro mais rudo,
Tudo se alegra, ou vós alegrais tudo.

Alegrais Terra e Céu coas luzes belas
Desses olhos fermosos,
Que são tão milagrosos,
Que dão flores à Terra, ao Céu estrelas;
Ao Tejo, que inda tem maior ventura
Dais o retrato dessa fermosura,
Que é de riquezas bem maior tesouro,
Que o levar as areias do fino ouro:
Pois tudo enriqueceis, Senhora, vemos
Que sais mais rica e tendes mais extremos.

Festeja o mesmo Amor vossa ventura
E a saúde, de soberba nela,
Se mostra já mais bela,
E se enriquece em vossa fermosura:
As Graças, coroadas de mil flores,
Vos coroam por deusa dos Amores,
E vos dão, o que vosso Abril vos dera,
Que, também sois das Graças Primavera:
Já que alegrais a tudo com saúde,
Tudo se alegre e ela não se mude.