No monte de Amor andei
MOTE
No monte de Amor andei,
Por ter de monteiro fama,
Sem tomar gamo nem gama.
VOLTA
Achei-me tão enlevado
Neste monte a montear,
Que donde cuidei caçar
Eu mesmo fiquei caçado.
Caçador desesperado,
Saí de ũa e outra rama,
Sem tomar gamo nem gama.
Levava por eus monteiros,
Nesta caca de tormentos,
Os meus ais, que como vento,
Iam diante, ligeiros.
Uns tão tristes companheiros
Levava, como quem ama,
Por descobrir esta gama.
A roupa de montear
Que neste dia levava,
Era o mal que me pesava;
A corneta, o suspirar.
Já não podia cessar,
Como touro quando brama,
Só por buscar esta gama.
Os cães eram meus tormentos,
Cheios de muita agonia;
O furão, minha porfia;
As redes, meus pensamentos.
Nem me valeu tomar ventos,
Nem penetrar pela rama
Pera descobrir tal gama.
