Muito sou meu inimigo

Mote que lhe mandou o vizo-rei da Índia, para fazer umas voltas

MOTE: Muito sou meu inimigo,
Pois que não tiro de mi
Cuidados com que nasci,
Que põem a vida em perigo.
Oxalá que fora assi!

VOLTA
Viver eu, sendo mortal,
De cuidados rodeado,
Parece meu natural;
Que a peçonha não faz mal
A quem foi nela criado.
Tanto sou meu inimigo,
Que, por não tirar de mi
Cuidados com que nasci,
Porei a vida em perigo.
Oxalá que fora assi!

Tanto vim a acrescentar
Cuidados que nunca amansam,
Enquanto a vida durar,
Que canso já de cuidar
Como cuidados não cansam.
Se estes cuidados que digo
Dessem fim a mi e a si,
Fariam pazes comigo;
Que pôr a vida em perigo,
O bom fora pera mi.

Redondilhas mandadas ao vizo-rei, com o Mote atrás

Conde, cujo ilustre peito
Merece nome de Rei,
Do qual muito certo sei
Que lhe fica sendo estreito
O cargo de Vizo-Rei;
Servirdes-vos de ocupar-me,
Tanto contra meu planeta,
Não foi senão asas dar-me,
Com as quais vou a queimar-me,
Como o faz a borboleta.

E se eu a pena tomar
Que tão mal cortada tenho,
Será pera celebrar
Vosso valor singular,
Dino de mais alto engenho.
Que, se o meu vos celebrasse,
Necessário me seria
Que os olhos da águia tomasse,
Só pera que não cegasse
No sol de vossa valia.

Vossos feitos sublimados
Nas armas, dinos de glória,
São no Mundo tão soados,
Que em vós de vossos passados
Se ressuscita a memória.
Pois aquele ânimo estranho,
Pronto pera todo efeito,
Espanta todo conceito.
Como coração tamanho
Vos pode caber no peito?

A clemência que asserena
Coração tão singular,
Se eu nisso pusesse a pena,
Seria encerrar o mar
Em cova muito pequena.
Bem basta, Senhor, que agora
Vos sirvais de me ocupar,
Que assi fareis aparar
A pena, com que algũa hora
Vos vereis ao Céu voar.

Assi vos irei louvando,
Vós a mi do chão erguendo,
Ambos o Mundo espantando:
Vós, com a espada cortando;
Eu, com a pena escrevendo.