De vós me parto, ó Vida, e em tal mudança
De vós me parto, ó Vida, e em tal mudança
Sinto vivo da morte o sentimento;
Não sei para que é ter contentamento,
Se mais há-de perder quem mais alcança.
Mas dou-vos esta firme segurança:
Que, posto que me mate o meu tormento,
Por as águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.
Antes sem vós meus olhos se entristeçam
Que com coisa outra alguma se contentem
Antes os esquecais, que vos esqueçam;
Antes nesta lembrança se atormentem
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.
