Vossa Senhoria creia
Estas trovas mandou Heitor da Silveira ao mesmo conde, invernando em Goa
Vossa Senhoria creia
Que não apura o engenho
Fome, se é como a que tenho,
Mas afraca e corta a veia.
E quem o contrário sente,
Está farto em toda a hora,
Como estou faminto agora:
Mas Marta, se está contente,
Dá-lhe pouco de quem chora.
E pois Vossa Senhoria
Em geral a tudo acode,
Acuda a mi, que só pode,
Dar-me no engenho valia.
Esperte esta Musa minha,
Que o tempo traz sonolenta;
Valha-lhe nesta tormenta
Com essa doce mezinha,
Que só dá vida e contenta.
Acuda com provisão,
Não de papel, mas provida
De ouro e prata; que esta vida
Não sustentam papéis, não.
De feitor a tesoureiro
Ser-me-ia trabalho grande;
Vossa Senhoria mande
Algum remédio, primeiro,
Com que a morte o ferro abrande.
Ajuda de Luís de Camões
Nos livros doutos se trata
Que o grande Aquiles insano
Deu a morte a Heitor troiano;
Mas agora a fome mata
O nosso Heitor lusitano.
Só ela o pode acabar,
Se essa vossa condição
Liberal e singular
Não mete antre eles bastão,
Bastante pera o fartar.
