Vai o bem fugindo

Sentenças do Autor por fim do Livro

Vai o bem fugindo,
Cresce o mal cos anos,
Vão-se descobrindo
Co tempo os enganos.

Amor e alegria
Menos tempo dura.
Triste de quem fia
Nos bens da ventura!

Bem sem fundamento
Tem certa a mudança,
Certo o sentimento
Na dor da lembrança.

Quem vive contente,
Viva receoso:
Mal que se não sente,
É mais perigoso.

Quem males sentiu,
Saiba já temer;
E pelo que viu
Julgue o que há-de ser.

Alegre vivia,
Triste vivo agora;
Chora a alma de dia,
E de noute chora.

Confesso os enganos
De meu pensamento:
Bem de tantos anos
Foi-se num momento.

Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
O bem que perdestes.

A luz do Sol pura
Só a vós se negue;
Seja noute escura,
Nunca a manhã chegue.

O campo floreça,
Murmurem as águas,
Tudo me entristeça,
Cresçam minhas mágoas.

Quisera mostrar
O mal que padeço;
Não lhe dá lugar
Quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados
Passo a triste vida;
Cuidados cansados,
Vida aborrecida.

Nunca pude crer
O que agora creio:
Cegou-me o prazer
Do mal que me veio.

Ah ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

Triste fantesia
Quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia,
Que tanto lhe tarda.

Nesta vida cega
Nada permanece;
O que inda não chega,
Já desaparece.

Qualquer esperança
Foge como o vento:
Tudo faz mudança,
Salvo meu formento.

Amor cego e triste
Quem o tem padece:
Mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo,
Sei como Amor trata:
E pois nele vivo,
Nenhum amor mata.