Tomei a triste pena

VIII

Tomei a triste pena,
Já de desesperado
De vos lembrar as muitas que padeço,
Vendo que me condena
A ficar eu culpado
O mal que me tratais e o que mereço.
Confesso que conheço
Que, em parte, a causa dei
Ao mal em que me vejo,
Pois sempre o meu desejo
A tão largas promessas entreguei;
Mas não tive suspeita
Que seguísseis tenção tão imperfeita.

Se em vosso esquecimento
Tão condenado estou
Como os sinais demonstram que mostrais,
Neste vivo tormento,
Lembranças mais não dou
Que as que desta rezão tomar queirais:
Olhai que me tratais
Assi de dia em dia
Com vossas esquivanças;
E as vossas esperanças,
De que, vãmente, já me enriquecia,
Renovam a memória,
Pois, com a ter de vós, só tenho glória.

E se isto conhecêsseis
Ser verdade mais pura
Do que d'Arábia o ouro reluzente,
Inda que não quisésseis,
Essa condição dura
Em branda se mudara facilmente.
Eu, vendo-me inocente,
Senhora, neste caso,
Bem no arbítrio o pusera
De quem sentença dera.
Com que o que é justo se mostrasse raso;
Se, enfim, não receara
Que a vós por mim e a mim por vós matara.

Em vós escrita vi
Vossa grande dureza,
E n'alma escrita está, que de vós vive,
Não que acabasse ali
Sua grande firmeza
O triste desengano que então tive;
Porque antes que me prive
A dor de meus sentidos,
Ao penoso tormento
Acode o entendimento
Com dous fortes soldados, guarnecidos
De rica pedraria,
Que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,
Estou posto sem medo
A tudo o que o fatal destino ordene;
Pode ser que, cansado,
Ou seja tarde ou cedo,
Com pena de penar-me, me despene.
E quando me condene
(Que é o que mais espero)
Inda a penas maiores,
Perdidos os temores,
Por mais que venham, não direi: não quero.
Estou, enfim, tão forte,
Que não pode mudar-me a própria morte.

Canção, se já não queres
Crer tanta crueldade,
Lá vai onde verás minha verdade.