Tende-me mão nele
MOTE ALHEIO
Tende-me mão nele,
Que um real me deve.
VOLTAS
Cum real de amor,
Dous de confiança
E três de esperança,
Me foge o tredor.
Falso desamor
Se encerra naquele
Que um real me deve.
Pediu-mo emprestado,
Não lhe quis penhor;
É mau pagador,
Tende-mo aferrado.
Cum cordel atado,
Ao Tronco se leve,
Que um real me deve.
Por esta travessa
Se vai acolhendo;
Ei-lo vai correndo,
Fugindo a grã pressa.
Nesta mão e nessa
O falso se atreve,
Que um real me deve.
Comprou-me amor
Sem lhe fazer preço:
Eu não lhe mereço
Dar-me disfavor.
Dá-me tanta dor
Que ando após ele
Pelo que me deve.
Eu de cá bradando,
Ele vai fugindo;
Ele sempre rindo,
Eu sempre chorando.
E de quando em quando
No amor se atreve,
Como que não deve.
A falar verdade,
Ele já pagou;
Mas inda ficou
Devendo ametade.
Minha liberdade
É a que me deve;
Só nela se atreve.
