Suspeitas, que me quereis?

A UMAS SUSPEITAS

Suspeitas, que me quereis?
Que eu vos quero dar lugar
Que, de certas, me mateis
Se a causa de que nasceis
Vos quisesse confessar.

Que de não lhe achar desculpa
A grande mágoa passada
Me tem a alma tão cansada,
Que, se me confessa a culpa,
Tê-la-ei por desculpada.

Ora vede que perigos
Têm cercado o coração,
Que no meio da opressão
A seus próprios inimigos
Vai pedir a defensão!

Que, suspeitas, eu bem sei,
Como se claro vos visse,
Que é certo o que já cuidei;
Que nunca mal suspeitei
Que certo me não saísse.

Mas queria esta certeza
Daquela que me atormenta;
Porque, em tamanha estreiteza,
Ver que disso se contenta,
É descanso da tristeza.

Porque se esta só verdade
Me confessa, limpa e nua,
De cautela e falsidade,
Não pode a minha vontade
Desconforme ser da sua.

Por segredo namorado
É certo estar conhecido
Que o mal de ser enjeitado
Mais atormenta, sabido,
Mil vezes, que suspeitado.

Mas eu só, em quem se ordena
Novo modo de querela,
De medo da dor pequena,
Venho a achar na maior pena
O refrigério pera ela.

Já nas iras me inflamei,
Nas vinganças, nos furores,
Que já doudo imaginei;
E já mais doudo jurei
De arrancar de alma os amores.

Já determinei mudar-me
Pera outra parte com ira;
Depois vim a concertar-me
Que era bom certificar-me,
No que mostrava a mentira.

Mas depois já de cansadas
As fúrias do imaginar,
Vinha enfim a rebentar
Em lágrimas magoadas
E bem pera magoar.

E deixando-se vencer
Os meus fingidos enganos
De tão claros desenganos,
Não posso menos fazer
Que contentar-me cos danos,

E pedir que me tirassem
Este mal de suspeitar
Que me vejo atormentar,
Inda que me confessassem
Quanto me pode matar.

Olhai bem se me trazeis,
Senhora, posto no fim;
Pois neste estado a que vim,
Pera que vós confesseis,
Se dão os tratos a mim.

Mas pera que tudo possa
Amor, que tudo encaminha,
Tal justiça lhe convinha;
Porque da culpa, que é vossa,
Venha a ser a morte minha.

Justiça tão mal olhada,
Olhai com que cor se doura,
Que quero, ao fim da jornada,
Que vós sejais confessada,
Pera que eu seja o que moura!

Pois confessai-vos já agora,
Inda que tenho temor
Que nem nesta última hora
Me há-de perdoar Amor
Vossos pecados, Senhora.
E assim vou desesperado,
Porque estes são os costumes
De amor que é mal empregado,
Do qual vou já condenado
Ao inferno de ciúmes!