Senhora, se encobrir por algũa arte

Senhora, se encobrir por algũa arte
Pudera esta ocasião de meu tormento,
Não creias que chegara a declarar-te
Este meu perigoso pensamento.
Mas, por mais que te ofenda, não sou parte
No crime de tamanho atrevimento:
Ele é de Amor; e dele fui forçado
A que te declarasse o meu cuidado.

Se merece castigo a confiança
Com que descubro agora o que padeço,
Aqui pronto me tens; toma a vingança
Que por tão grave culpa te mereço.
Bem me podes negar toda esperança,
Mas eu, não desistir deste começo;
Porque Tempo e Fortuna não são parte
Pera deixar ũa hora só de amar-te.

Já que ver-te os meus olhos alcançaram,
Descansem neste bem com alegria,
Pois já, com ver os teus, tanto ganharam,
Quanto, estando sem vê-los, se perdia.
Que glória querem mais, se a ver chegaram
Aquela pura luz que vence ao dia?
Qual mor bem há no mundo que querer-te,
Se não há mais que ver, depois de ver-te?

Minhas dores mortais, bela Senhora,
Tiraram a virtude ao sofrimento;
E fazendo-se mais em qualquer hora,
Levando vão trás ti meu pensamento;
Porém soberbos vejo desde agora,
Por a causa gentil de seu tormento,
Minha alma, meu desejo, meu sentido,
Porque à tua beleza se hão rendido.

A par de tua rara fermosura,
Se desconhece o mor merecimento;
A tua claridade torna escura
Do Sol a clara luz em um momento.
Se Zêuxis, ao formar bela figura,
A vista em ti pudera pôr atento,
Mais alto original houvera achado
Pera admirar o mundo co traslado.

Aqueles que escreveram mil louvores
De fermosura, graça e gentileza,
Todos foram, Senhora, uns borradores
De tua perfeitíssima beleza.
Agora se vê claro em teus primores
Que em ti se esmerou mais a Natureza;
E que eram os seus cantos profecias
Do que havias de ser em nossos dias.

Vê, pois, se vinha a ser culpável falta
Em mim o não render-te, amante, a vida,
E se deixar de amar glória tão alta
Era dino de pena mais crecida.
Enfim, eu te amarei; que Amor me exalta
Co castigo de culpa assi atrevida;
E, quando dela caia, maior glória
Terá o Tejo que o Pó com sua história.