Senhora, quando imagino
Senhora, quando imagino
O divino
Vosso gesto, claro e belo,
De algũa hora merecê-lo
Me conheço por indino,
Que se sento
Ser altivo o pensamento
Que me inclinou,
Vejo que amor vos destina
Pera mor merecimento.
Porque é vosso lindo aspeito
Tão perfeito
Que na mais pequena parte,
Não pode, por nenhũa arte,
Compreender o humano peito;
Nem me espanta,
Porque se tivestes tanta
Fermosura,
Vossa suprema ventura
Mais alta vos alevanta.
Porém se meus pensamentos
Nos tormentos,
Quiserdes exp'rimentar,
Bem os podeis comparar
Com vossos merecimentos,
Que se ordena
Amor em parte pequena
Opinião,
Crede que meu coração
É incapaz de grande pena.
E se cuidais porventura
Que a Natura
Contém outro regimento,
Sabei que meu pensamento
Em vosso gesto se apura;
Nem me engano
Que mudei o ser de humano
Como pude
Em divino, por virtude,
De gesto tão soberano.
Assim que, feito imortal,
Ou mortal,
Outro nome tomarei
De ser vosso pois mudei
O costume natural.
Também vós,
Pelo bem que em vós se pôs,
Sereis dina
De serdes de vós divina;
Mas eu divino por vós.
Enfim, que desta maneira,
A fé inteira
Que no peito amor me cria,
Vereis crescer cada dia.
Porque sempre mais vos queira
A fineza
De um amor que nesta empresa
Me acompanha,
Ficará sendo tamanha
Como vossa gentileza.
