Sempre me queixarei desta crueza
Sempre me queixarei desta crueza
Que Amor usou comigo quando o tempo,
Apesar de meu duro e triste Fado,
A meus males queria dar remédio,
Em apartar de mim aquela vista,
Por quem me contentava a triste vida.
Levara-me, oxalá, trás ela a vida,
Pera que não sentira esta crueza
De me ver apartado de tal vista!
E praza a Deus não veja o próprio tempo
Em mim, sem esperança de remédio,
A desesperação dum triste Fado!
Porém já acabe o triste e duro Fado!
Acabe o tempo já tão triste vida,
Que em sua morte só tem seu remédio.
O deixar-me viver é mor crueza,
Pois desespero já de em algum tempo
Tornar a ver aquela doce vista.
Duro Amor! Se pagava só tal vista
Todo o mal que por ti me fez meu Fado,
Porque quiseste que a levasse o tempo?
E se o assi quiseste, porque a vida
Me deixas pera ver tanta crueza,
Quando em não vê-la só vejo o remédio?
Tu só de minha dor eras remédio,
Suave, deleitosa e bela vista.
Sem ti, que posso eu ver senão crueza?
Sem ti, qual bem me pode dar o Fado,
Se não é consentir que acabe a vida?
Mas ele dela me dilata o tempo.
Asas pera voar vejo no tempo,
Que com voar a muitos foi remédio;
E só não voa pera a minha vida.
Pera que a quero eu sem tua vista?
Pera que quer também o triste Fado
Que não acabe o tempo tal crueza?
Não poderão fazer crueza, ou tempo,
Força de Fado, ou falta de remédio,
Que essa vista me esqueça em toda a vida.
