Sem vós – e com meu cuidado
MOTE ALHEIO
Sem vós - e com meu cuidado
Olhai com quem - e sem quem!
GLOSA
Vendo Amor que com vos ver,
Mais levemente sofria
Os males que me fazia,
Não me pôde isto sofrer;
Conjurou-se com meu Fado,
Um novo mal me ordenou:
Ambos me levam forçado
Não sei onde, pois que vou
Sem vós - e com meu cuidado:
Não sei qual é mais estranho
Destes dous males que sigo:
Se não vos ver, se comigo
Levar imigo tamanho.
O que fica e o que vem.
Um me mata, outro desejo;
Com tal mal, e sem tal bem,
Em tais extremos me vejo:
Olhai com quem - e sem quem!
Ao mesmo mote
Amor, cuja providência
Foi sempre que não errasse,
Porque na alma vos levasse,
Respeitando o mal de ausência,
Quis que em vós me transformasse.
E vendo-me ir maltratado,
Eu e meu cuidado sós,
Proveio isso de atentado,
Por não me ausentar de vós,
Sem vós - e com meu cuidado.
Mas esta alma, que eu trazia
Porque vós nela morais,
Deixa-me cego e sem guia;
Que há por milhor companhia
Ficar onde vós ficais.
Assi me vou de meu bem
Onde quer a forte estrela,
Sem alma, que em si vos tem,
Co mal de viver sem ela.
Olhai com quem - e sem quem!
