Se derivais da verdade

Outra a uma senhora, a quem deram para uma filha sua um pedaço de cetim amarelo, de quem se tinha suspeita.

Se derivais da verdade
Esta palavra sitim,
Achareis sem falsidade
Que após o si tem o tim,
Que tine em toda a cidade.

Bem vejo que me entendeis;
Mas, porque não fale em vão,
Sabei que a esta nação,
Tanto que o si concedeis,
O tim logo está na mão.

E quem da fama se arreda,
Que tudo vai descobrir,
Deve sempre de fugir,
De sitins, porque da seda
Seu natural é rugir.

Mas pano fino e delgado,
Qual a cacha e outros assi,
Dura, aquenta e é calado,
Amoroso, e dá de si
Mais que sitim nem brocado.

Mas estes que sedas são
Com que se enganam mil damas,
Mais vos tomam do que dão;
Prometem, mas não darão,
Senão nódoas pera as famas.

E se não me quereis crer
Ou tomais outro caminho,
Por exemplo o podeis ver,
Quando lá virdes arder
A casa de algum vezinho.

Ó feminina simpreza,
Donde estão culpas a pares,
Que por um Dom de nobreza
Deixam dões da Natureza,
Mais altos e singulares!

Um Dom que anda enxertado
No nome, e nas obras não.
Falo como exp'rimentado;
Que sitim desta feição
Eu tenho muito cortado.

Dizem-me que era amarelo;
E quem assim o quis dar,
Só pera me Deus vingar,
Se vem à mão amarei-lo,
O que eu não posso cuidar.

Porque quem sabe viver
Por estas artes manhosas
(Isto bem pode não ser),
Dá a mininas fermosas,
Somente polas fazer,

Quem vos isto diz, Senhora,
Serviu nas vossas armadas
Muito, mas anda já fora;
E pode ser que inda agora
Traz abertas as frechadas.

E, posto que disfavores
O tiram de servidor,
Quer-vos ventura milhor;
Que, dos antigos amores,
Inda lhe fica este amor.