Quando a suprema dor muito me aperta
Quando a suprema dor muito me aperta,
Se digo que desejo esquecimento,
É força que se faz ao pensamento,
De que a vontade livre desconcerta.
Assi, de erro tão grave me desperta
A luz do bem regido entendimento,
Que mostra ser engano ou fingimento,
Dizer que em tal descanso mais se acerta.
Porque essa própria imagem, que na mente
Me representa bem de que careço,
Faz-mo de um certo modo ser presente.
Ditosa é, logo, a pena que padeço,
Pois que da causa dela em mim se sente
Um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.
